‘‘A maior garantia de que não haverá desabastecimento do álcool é o forte empenho do setor pelo relançamento do carro a álcool.’’ Eduardo Pereira de Carvalho, presidente da Única
As montadoras reafirmam que estão a fim de relançar o carro a álcool nas respectivas linhas de montagem. Claro, as quatro montadoras que dominam a engenharia do motor sem gasolina: Fiat, Ford, Volkswagen e General Motors. Elas avisam que já venderam, este ano, até a semana passada, perto de 15 mil carros movidos a álcool.
Ainda uma ninharia para os tempos gloriosos do carro a álcool, com participação de mercado superior a 90% na oferta de carros novos. Quando? Nos anos 80, já em pleno refluxo dos choques encavalados dos barris importados. Mas, para as quase 9 mil unidades vendidas este ano pela Volkswagen, a coisa já está em 8,5% da produção total, contra menos de 0,5% no ano 2000.
O rebrota do interesse do mercado pelo carro a álcool tem a ver com as recentes estripulias do petróleo alheio, com a síndrome ainda latente do apagão e com o buraco negro cavado na política nacional de combustíveis – Petrobrás ensaiando brandir aí pelas esquinas a variação diária dos preços da ilustre mercadoria.
Pelo sim, pelo não, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Sérgio Amaral, abriu anteontem com a cadeia produtiva do carro a álcool – destilarias e montadoras – uma primeira rodada de negociação para o relançamento incentivado desse mercado – de resto, único no mundo.
Há mata-burros na estrada. Montadoras, concessionárias e consumidores exigem, acima de tudo, garantia do suprimento pelas destilarias já instaladas. E mais: um tratamento fiscal favorecido e de um tratamento tarifário diferenciado para estimular a opção pelo carro a álcool e para compensar o consumo maior por quilômetro rodado por um preço menor devidamente equalizado. Era o que se fazia no fastígio dos anos 80.
Garantia de suprimento? O presidente da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo pondera o seguinte: 1) a capacidade instalada por ano-safra já é de 16 bilhões de litros e acomodaria um aumento imediato de demanda da ordem de 5,5 bilhões; 2) na hipótese de uma reestréia vitoriosa do carro a álcool, a oferta do álcool hidratado poderia ser igualmente dilatada pela redução equivalente do álcool anidro (o da mistura carburante).
O que o ministro Sérgio Amaral questiona, no ponto-chave da garantia de suprimento (cuja ruptura baniu do mercado o carro a álcool), é a oscilação de mercado dos usineiros na direção do açúcar, quando este sobe de cotação lá fora. Ele chega mesmo a condicionar a reabilitação incentivada do carro a álcool a uma sobretaxa regulatória na exportação de açúcar.
Eduardo Pereira de Carvalho, da Única, tranquiliza: ‘‘A maior garantia de que não haverá desabastecimento é o forte empenho do setor no relançamento do carro a álcool.’’
SECOS & MOLHADOS
No bagaço
E o que dizer da co-geração de energia a partir do bagaço de cana? Opção retomada in extremis no apagão institucional da crise de energia. Matéria finalmente regulada, há três semanas, pela Lei 10.438. Está criado, com 20 anos de atraso, o Programa de Incentivos a Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa).
Musculação
Maurílio Biagi Filho, do grupo Santa Elisa, lembra que um Proálcool em 2002 daria de 10 x 1 no Proálcool de 1977. Simplesmente porque, de lá para cá, o setor returbinou a produtividade dos canaviais e das destilarias, enobreceu rejeitos (vinhoto na adubação e bagaço na co-geração), modernizou as relações de trabalho e assumiu práticas de sustentabilidade econômica e ambiental.
Como é que é?
Pois, enquanto o Brasil reata o namoro com o combustível renovável e ecologicamente (quase) correto, que dá carona a uma mistura carburante menos suja, montadoras européias cacarejam o lançamento de novos motores a diesel para automóveis. Voltaremos ao assunto.

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