‘‘Se já tínhamos um contestado risco Brasil lá fora, acabamos de inventar o risco Bacen aqui dentro.’’
Elói Cirne de Toledo, economista
O risco é nosso
Por um placar pouco convincente de 5 x 3, o Conselho de Política Monetária (Copom), do Banco Central (Bacen), decidiu manter a taxa básica de juros, vulgo Selic, congelada em 18,50% ao ano. Mais importante que a decisão de não mexer no time que está perdendo o jogo do crescimento é a exposição de motivos da própria: a ata da reunião.
E tome nova vigília de mais alguns dias inúteis na cabeceira da ata que não desata a neura intermitente da autoridade monetária. Ela acaba de apelar para uma nova figura do já prolixo vocabulário do mercado financeiro: a do ‘‘balanço de riscos’’. Um ‘‘balanço de oportunidades’’, nem pensar. Austeridade monetária não brinca em serviço. Menos ainda quando se proclama refém de metas inflacionárias por ela mesma paridas.
Nesse tal de ‘‘balanço de riscos’’, que aceita tudo, a média ponderada em favor da manutenção da Selic deve estar jogando com a ‘‘alta-tensão do núcleo da inflação no atacado’’, com a contagem regressiva do colapso terminal na Argentina, com a pancadaria rosca sem-fim nas areias do Oriente Médio encharcadas de petróleo, com o anúncio oficial de um próximo atentado terrorista nos Estados Unidos...
E mais: com as variáveis ainda gasosas do reequilíbrio fiscal, com o ‘‘coeficiente de vulnerabilidade do balanço de pagamentos’’, com a visível (ou risível) má vontade dos classificadores do risco Brasil, com a eventual bolha especulativa do dólar (o câmbio flutuante não perde a mania de flutuar), com ‘‘o crescimento de Lula’’ nas últimas pesquisas eleitorais, com a rebrota do escandalômetro planaltino nas próximas capas das revistas semanais... Ah! E com o provável fiasco da Pátria de chuteiras na Copa do Mundo lá no outro lado do próprio.
Pensando bem, não sei por que o Copom não soergueu a Selic para 19,50% ou mesmo para 20,75%. Esse número quebrado à direita da vírgula confere credibilidade técnica às periódicas recalibragens da Selic. Número redondo seria um chute. Se para baixo, meramente eleitoreiro.
Para baixo, por que não? É o que se pergunta Horácio Lafer Piva, presidente da Fiesp. Ele não tem a cabeça lavada pelo tal de ‘‘mercado financeiro’’. Ela representa a economia real, a do Brasil que arrisca, produz, vende, consome, trabalha - e por esse mesmo empenho punida com carga fiscal do tamanho de 34% do PIB verde-amarelo de remorso.
A economia e a sociedade não estão plugadas na Selic. Muito menos na variação ou não da Selic à direita da vírgula. O que não está em discussão mensal nem merece uma única ata do Banco Central é o garrote financeiro na base da produção e na ponta do consumo. Simplesmente, o crédito mais curto e mais caro do mundo. De até 180% ao ano no cheque especial sem opção.
Secos & Molhados
Para baixo
O lançado ‘‘balanço de riscos’’ do Copom não tem viés de baixa. Mas haveria espaço técnico e tempo político para refundir a Selic abaixo de 17% em mais quatro navalhadas até outubro. Ou para 15% até dezembro. Afinal, em emergentes na mesma praça do tiroteio a taxa básica não tem passado de 5,2% na China, de 4,9% na Índia, de 4,5% no México, de 2,7% no Chile, de 0,2% na Coréia.
Inflação?
Medo da inflação? Que inflação? A dos preços administrados pelo próprio governo? Estes respondem por quase dois terços do núcleo do IPCA de quase 8% nos últimos 12 meses. E o que a danada da Selic pode fazer contra isso? Se é que ela tem alguma força sobre os movimentos da demanda ou do consumo - ela que não consegue atrelar para baixo as taxas draculianas do crédito bancário.
Que risco?
Ou como diz Elói Cirne de Toledo, vice-presidente da Nossa Caixa: parece que o risco Brasil não está na Moody’s. Quem morre de medo do Brasil é o Copom.

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