‘‘A hiperinflação tende ser a única solução para o colapso argentino. Uma solução perversa que pulverizaria todas as dívidas em pesos.’’
Paulo Leme, analista financeiro
Com vela na mão
Só falta o panelaço argentino exigir um acordo imediato com o FMI. Pois agora não falta mais nada. Na greve geral de ontem, pilotada pela central peronista contra o governo peronista, abriram faixas em vermelho do tipo ‘‘S.O.S. FMI’’.
Tem-se na frente da Casa Rosada que só um aval político da Casa Branca teria força suficiente para acionar o emperrado desconfiômetro do FMI. A partitura da burocracia do Fundo lembra a cantilena de Nero enquanto Roma ardia em chamas por ele mesmo atiçadas.
Ainda chamuscado pelos incêndios do México, da Ásia e da Rússia, com sobras para a Turquia e o Brasil, o FMI vacila em colocar novo dinheiro bom sobre um velho dinheiro ruim. Em nome do ‘‘moral hazard’’ - o de não mais querer ajudar quem não se ajuda - a tecnocracia do Fundo prefere substituir a intervenção pela contemplação nesta agonia rosca sem-fim da Argentina.
Caciques da peronista Confederação Geral do Trabalho (CGT) admitiram ontem, nos trios elétricos da greve geral, que um socorro tático do FMI, ainda que de pequena monta, teria o dom divino de recuperar alguma credibilidade externa para alguma sobrevida da enrascada interna.
Ocorre que o FMI não ousa abrir precedente em seu ortodoxo receituário de meio século. Nada de dar moleza à pusilanimidade fiscal da Argentina. Cujas 24 províncias - a maioria delas com o poder de emitir moedas fiduciárias em causa própria - não estão mesmo a fim de cumprir pactos de austeridade orçamentária com o governo central.
O próprio governo central, agora transitoriamente chefiado por um tal de Duhalde, não se entende sobre o que fazer para desfazer o corralito. Enquanto o novo ministro da Economia (mais um) defende a conversão voluntária do dinheiro bloqueado em banco por títulos públicos para resgate até em 10 anos (vixe!), o presidente demissionário do Banco Central está com a troca compulsória e não abre.
Já no estágio terminal da tolerância zero, a população argentina tem precisamente no ‘‘corralito’’ o purgatório da expiação nacional. Sem dinheiro até para pagar o gás da calefação na Patagônia já com termômetro abaixo de zero, os argentinos estão emparedados pelo desemprego recorde de 23% e pela carestia de 74% na cesta básica desde outubro. Ah! E com o salário real dos sobreviventes do emprego formal acumulando perdas de 17% desde julho do ano passado.
Cenaristas argentinos garantem que o IPC pode acumular no ano marca superior a 70%. E o PIB gregoriano, retração de até 12%. Recessão com inflação ou inflação com recessão, para um organismo econômico e social já desmantelado, indica que a Argentina está, finalmente, com vela na mão e padre na cabeceira.
Secos & Molhados
Solução - Diretor de pesquisa para países emergentes do Banco Goldman Sachs, em Nova York, o economista brasileiro Paulo Leme diz que só resta uma saída de choque (perversa) para o impasse argentino: deixar uma hiperinflação corroer o peso para pulverizar os passivos públicos e privados em moeda nacional (já depreciada em 77% ante o dólar).
E o ‘‘crash’’? - O problema é que no lado credor os bancos argentinos estão ‘‘micados’’ até a medula e os bancos estrangeiros afivelam os cofres e começam a abandonar o barco à deriva. Ou como dizia Adoniran Barbosa: ‘‘Bom de briga é quem tira o corpo fora.’’
Alternativa - Há quem defenda outra solução de força: a redolarização total com o devido abandono da moeda nacional. Pela conversão justa 3 por 1, segundo Alfredo Piano, papa do câmbio livre em Buenos Aires. E os dólares? Seria uma redolarização em moeda escritural do tipo URV. Que tal?
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