‘‘Ainda sou do tempo em que toda geladeira era branca. E todo telefone era rigorosamente preto. E sem linha.’’
Elsie Lessa, escritora
Tambores da selva
Agora, em junho, haverá 1,2 bilhão de linhas de telefonia fixa em todo o mundo. Exatamente uma linha telefônica para cada cinco terráqueos. De sobremesa, exatamente outro tanto de telefones celulares de primeira e de segunda gerações, já com os pés chipados pegando o bonde digital da terceira.
A estimativa do empate técnico entre a velha malha fixa e a nova rede móvel é da União Internacional de Telecomunicações (UIT). Que projeta o desgarramento rápido da segunda sobre a primeira no mundo inteiro, Brasil no meio. A fixa tende a continuar crescendo pelo trote de 10% ao ano. A móvel, pelo torque de 24% ao ano. Ou seja: a fixa vai dobrar de tamanho até 2010. A móvel deve realizar a mesma façanha até 2005.
O vasto mercado telecom ainda purga a ressaca da euforia do triênio 1997/1999 - assunto aqui tratado em ‘‘Mico de Ouro’’. Mas ensaia crescer, na soma da fixa com a móvel, cerca de 11% agora em 2002. Com fatura global de US$ 1,1 trilhão, entre negócios diretos e indiretos.
Essa plataforma telecom dá suporte aos mercados coligados de datacom, midiacom e pontocom. Cabe lembrar que a computação ou a informática (datacom) responde pelo estrepitoso processo de modernização ou digitalização das telecomunicações em geral - da telefonia do século 19 à televisão do século 21, passando pela Internet, ainda na Idade da Web lascada.
O relatório da UIT informa que a internet cresceu 57% em 2000, tempo do ajuste de choque. Cresceu 28% em 2001, tempo do quase Juízo Final. E leva jeito e trejeito de avançar mais 21% em 2002, tempo do ‘‘o pior já passou’’.
Fiquemos no Datacom Brasil. O Censo 2000, divulgado dia 8 pelo IBGE, localizou a existência, naquele ano, de 17,4 milhões de computadores pessoais (PCs) em todo o País. Na soma de PCs de mesa com PCs de mão? O Censo não computou esse detalhe. O certo é que o número surpreende: a inclusão digital (que analistas estrábicos chamam de exclusão digital) é bem maior que aquela admitida por apurações oficiais de governos e de empresas.
Explicação? Empresas e governos não têm como apurar a extensão real do importabando de PCs, especialmente de laptops, de pequeno porte, pouco peso e alto valor unitário. Não havia sequer referência de Censos anteriores do próprio IBGE.
A descoberta desse estoque domiciliar de 17,4 milhões de unidades é importante para a projeção dos mercados de bens e serviços plugados na plataforma brasileira de micros e afins. Que já deve ter passado de 20 milhões de unidades, nesta altura do calendário. Sem contar os PCs de uso corporativo, presentes em números crescentes em empresas de grande, médio e pequeno porte. Até porque máquinas e redes cada vez melhores a custos e preços cada vez menores.
Secos & Molhados
Sem radar
O problema é que, se o mercado provedor vai bem, o Estado regulador ainda vai mal. Que o diga o parto da montanha da porosa Lei de Informática. Ou o diploma gasoso da Zona Franca de Manaus. O desafio é como trazer para o Brasil as fábricas de componentes até aqui gulosamente importados.
Na caneta
Enquanto o Congresso hospeda o balão-de-ensaio que prorroga a Zona Franca até 2040 (pela Constituição, ela não deve passar de 2013), o Planalto examina um alívio tarifário na importação de computadores e de componentes. A tarifa média cairia de 16,7% para 10,4%, nos primeiros, e de 8,7% para 5%, nos segundos.
Por que não?
Para aplicar um rabo-de-arraia na pirataria e no contrabando, o governo também estuda a redução de tributos para PCs e componentes. Proposta da indústria triplicaria o mercado legal, em quatro anos, para 3,9 milhões de PCs por ano. A renúncia fiscal teria retorno garantido: a arredacação saltaria de R$ 390 milhões, em 2001, para R$ 1 bilhão em 2006.

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