‘‘O homem moderno deu de manipular o dinheiro como simples alavanca para obter mais dinheiro.’’
Bertrand Russell (1872-1970), filósofo inglês
O fim do crédito
A empresa brasileira de qualquer tamanho ou setor constitui o maior risco bancário do mundo em transe. E o cidadão brasileiro, mutuário do banco ou da loja, não passa de um Bin Laden disfarçado de consumidor no fiado. Vai daí que o crédito bancário para produção e consumo carrega no ventre um ‘‘prêmio de risco’’ de quase metade das taxas finais de juros.
A coisa chegou a tal ponto que não é mais o crédito curto e caro que provoca a inadimplência. Agora, é a inadimplência que justifica o crédito caro e curto. Eis o discurso do credor, de mãos limpas como as de Pilatos. Ele cuida de nos fazer engolir sem choro nem vela um diagnóstico supimpa da nova lei da usura: a febre é a causa da infecção.
Enquanto isso, os analistas em revoada entram em vigília cívica na cabeceira da Selic, taxa básica do Banco Central que calibra o financiamento de boa parte da dívida pública e o grosso das operações interbancárias. Pois amanhã, no início da tarde, mercado financeiro ainda operando à carga plena, o Conselho de Política Monetária (Copom) estará anunciando a decisão mais esperada que a última lista do Felipão: a de mexer ou não mexer na Selic, eis a questão.
Mexida à direita da vírgula, mas com massa crítica para produzir nova erupção do debate esotérico sobre os fundamentos da economia, as oscilações do mercado, os caprichos da inflação, as expectativas da sociedade, os prognósticos da eleição... E por que não a escalada do Brasil de chuteiras na Coréia e no Japão?
Se o Copom vai ou não reduzir em 0,25% a Selic estacionada em 18,50% - eis o que saberemos amanhã à tarde. E daí? Para o tal de ‘‘mercado’’, o que realmente importa não é a mexida (ou não) na Selic, mas a justificativa da decisão na próxima ata da reunião...
Ocorre que, assim de ata em ata, a análise financeira não desata. Se o Copom mantiver a taxa em 18,50%, será aplaudido pela cautela nesta travessia de terrenos minados. No mínimo, não poderá ser acusado de optar por ‘‘medida meramente eleitoreira que comprometeria a credibilidade da política monetária e a austeridade da meta inflacionária’’. Na melhor das hipóteses, uma Selic de 18,25% seria debitada a um ‘‘excesso de otimismo’’ da tecnocracia do Bacen.
Como esse filme de Buñuel está sendo reprisado a cada quatro ou cinco semanas, voltemos nossa lanterna amarela aos juros cobrados da economia real na base da produção e na ponta do consumo. As taxas finais vão continuar extorsivas por tempo indeterminado. E com a massa de crédito ‘‘disponibilizado’’ ainda abaixo de 30% do PIB. No bloco dos emergentes, acima de 70%.
Em países entediados, perto de 120%.
Secos & Molhados
Reinvenção
Domingo, na ‘‘Globonews’’, entrevistei por meia hora o diretor de Política Monetária do Banco Central, Luís Fernando Figueiredo. Que não desconversou: ‘‘O crédito bancário no Brasil simplesmente não existe. Temos de reinventá-lo com medidas institucionais e com mudanças estruturais.’’
Leva tempo
Mudanças estruturais? Isso leva tempo. E o atual governo não tem mais esse tempo. Tanto menos se, também na inadiável política monetária de distensão, deixar-se imobilizar pelo famigerado ‘‘depois da eleição’’. Com o eleitorado pagando até 130% ao ano no crediário de um fogão.
Vale ouro
Medidas institucionais? Os bancos culpam os recolhimentos e os contingenciamentos de lei pelo crédito curto. De cada R$ 100 de captação, só podem emprestar, livremente, R$ 16. Mesmo assim, em 2001, os empréstimos à clientela agradecida responderam por 45,5% do lucro médio líquido de 18,8% dos quatro maiores bancos.
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