‘‘Há uma contradição clamorosa entre a retórica do livre comércio e esta recaída do protecionismo na política comercial americana.’’ Rubens Barbosa, embaixador do Brasil nos EUA
Um par de números resume o azedume das trocas comerciais do Brasil com os Estados Unidos: a) sobre os 20 principais produtos americanos importados pelo Brasil, nossa tarifa média aqui no desembarque é de 12,9%; b) sobre os 20 principais produtos brasileiros desembarcados nos Estados Unidos, a tarifa média deles é de 39,1%.
O estudo comparativo, produto por produto, atualizado a cada ano, é da embaixada brasileira em Washington. A metodologia, de resto discutível como toda metodologia que se preza, leva em conta as tarifas ou barreiras legisladas, ainda que não de todo praticadas quando dentro de cotas físicas autorizadas pelo lado americano.
Outra ressalva metodológica: o cálculo é linear, sem a ponderação de cada produto no total das trocas. A média ponderada camuflaria picos tarifários elevados sobre determinados produtos. Exemplo: para ingressar no mercado americano, pagamos até 61% no suco de laranja, 166% no açúcar refinado e 350% no tabaco em folha.
De lá para cá, o produto americano mais penalizado é o automóvel (35%), seguido por autopeças (19,5%) e alguns bens de informática (21,8%).
Para o Brasil, o protecionismo comercial da economia mais poderosa e mais competitiva do mundo e da História joga não apenas com tarifas explícitas, também com outras barreiras regulatórias. Coisas do tipo sanções normativas, cláusulas sanitárias (no prelo, restrições sociais e salvaguardas ambientais). dispositivos antidumping e expedientes retaliatórios e/ou compensatórios. Estes últimos, diz o embaixador Rubens Barbosa, ‘‘não raro politicamente motivados’’.
E mais: o protecionismo serve-se igualmente da sustentação de subsídios diretos e indiretos aos produtores americanos. O que permite à competitividade nacional, assim robustecida, brigar com produtos similares estrangeiros dentro e fora dos Estados Unidos. Ou seja: o braço do Tesouro americano disfarçado de produto exportável aplica tesoura no pescoço do ‘‘made in Brazil’’ também em terceiros mercados.
Ora, assim fica fácil a Washington brandir a retórica de uma proteção tarifária média inferior a 5% nas trocas com o mundo todo.
Faltou dizer que essa megablindagem disfarçada do ‘‘made in Usa’’, igualmente de alcance global, tem massa crítica para deprimir preços livres de mercado ou de bolsa. Que o digam o café, a soja, o algodão, o suco, o aço... O valor da tonelada do café cru no mercado americano despencou do pico de US$ 3.160, em 1997, para o piso de US$ 756, em março último.
No algodão, fortemente subsidiado, os americanos dominam 42% do mercado mundial – bancando preços abaixo dos próprios custos. Resultado: as cotações internacionais de hoje são as mais baixas dos últimos 30 anos. Só.
Secos & Molhados
Guerra fria
Eis a verdadeira guerra fria neste mundo pós queda de muros, de torres e, já agora, também de pontes. Os governos não se entendem dentro da Organização Mundial do Comércio (OMC) para cultivo pactuado das sementes do comércio livre e justo. O certo é que a OMC exerce no plano econômico o mesmo poder de dissuasão disciplinar que a ONU desafia no plano político: nenhum.
Pelos blocos
Já que não se consegue sacar acordos bilaterais decentes, os países perdedores apelam para os acordos multilaterais de bloco com bloco. Neste fim de semana, em Madri, chefes de Estado do Mercosul (liderados pelo Brasil) iniciam com os colegas da União Européia a costura política de uma futura área de livre comércio entre os blocos.
Ciumeira
Resta saber se a cimeira de Madri produz ciumeira em Washington. O Mercosul vai mal das pernas e dos cofres, mas tem tutano para namorar a União Européia em pleno noivado com a Alca - bodas marcadas para janeiro de 2006. E cosi la nàve vá.
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]

mockup