‘‘Política industrial não é um capricho ideológico. É uma contingência do processo mercadológico.’’
Lester Turow, economista americano
Fábricas em linha
Virou promessa de campanha à direita e à esquerda, com sobras para o centro. Bem, se é que temos partidos e/ou programas de direita, de centro e de esquerda. Pelo sim, pelo não, ‘‘fazer política industrial’’ é um dos mais charmosos apelos da atual maratona eleitoral.
Charmoso para quem? Para os empresários de (quase) todos os setores. Em especial, os das cadeias produtivas de porte, de contornos definidos e de vasta exposição na mídia. Caso dos automóveis, dos petroquímicos, dos computadores, dos eletroeletrônicos, dos bens de capital em geral.
O curioso é que, até recentemente, política industrial era quase um palavrão emitido por lobistas de prontidão. Havia aversão ao assunto nas rodas políticas e nas esferas burocráticas. Dizia-se que ‘‘fazer política industrial’’ nada mais era que fazer a escolha entre quem vai vencer e quem vai perder –na guerra sem quartel da globalização das empresas de dentro para fora e dos mercados de fora para dentro.
Os puristas do livre mercado advogam o raciocínio tortuoso (ou torturado) da não-intervenção do Estado arbitral e provedor nos riscos naturais dos negócios privados. Sustentam eles: o mercado sabe errar sozinho e tem a mania de errar bem menos do que o Estado.
Os teólogos do monitoramento de setores industriais com crachá de ‘‘estratégicos’’ preferem lembrar que o governo, na medida em que se afasta da propriedade dos meios de produção, tem de azeitar a condição de autoridade maior sobre as decisões privadas. Do que resultará, lá na frente, um mercado pactuado ‘‘sob a patrulha da sociedade que dele se serve’’.
Os militantes dessa bandeira neocepalista sustentam que o planejamento estratégico não é da competência do mercado erradio e nômade. É da conveniência do Estado moderno, agora desafiado por um paradoxo telúrico: a crescente incompatibilidade entre um poder econômico que se globaliza e um poder político que se nacionaliza. Se não havia controle social do processo econômico até passado recente, tem-se agora o apelo ao controle político do próprio.
Culpa-se a inexistência de um leque de políticas setoriais no ‘‘front’’ industrial brasileiro pelo baixo teor de competitividade do ‘‘made in Brazil’’ lá fora e do ‘‘made in Brazil’’ aqui dentro. Sem essas políticas, as grandes empresas dão carona a um custo Brasil excessivo e as médias e pequenas simplesmente não conseguem embarcar nos bondes que passam.
No ‘‘export drive’’ verde-amarelo, por exemplo, as médias e pequenas empresas industriais respondem por menos de um décimo dos embarques totais de manufaturados. No México, na Itália ou na China, por dois terços. No ‘‘ranking’’ da competitividade global de 49 países emergentes pesquisados pelo IMD suíço, fomos rebaixados no ano passado do 31.º para o 35.º lugar.
Secos & Molhados
Falta tudo
Há quem prefira colocar o carro da reformulação das políticas monetárias e tributárias à frente da orquestração de políticas industriais e agrícolas. E que dizer da pregação cívica, no rodapé dessa discurseira, de uma revolução pela Educação a partir de uma revolução na Educação?
Leva tempo
Promoção industrial sem qualificação do pessoal nas escolas e nas fábricas é um castelo de areia. Em tal situação, os ganhos de produtividade deixam de expressar avanços qualitativos da economia e da sociedade. No plano social, como lembra o educador Mário Sérgio Cortella, ‘‘a gente chama de qualidade o que não passa de privilégio’’.
Pelo atalho
Como a transformação social não se dá por decreto nem se faz em um ou dois governos, a tal de política industrial tem apenas um atalho para resultados imediatos: afrouxar o garrote tributário e aliviar o arrocho monetário. Quem se habilita?
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