Joelmir Beting
A economia real se orienta pela lei da oferta e da procura. O mercado financeiro prefere a lei do enfarte e da loucura.
Roberto Campos (1917-2001), economista
Façam o jogo
A sete dias do martelo do Copom na cabeça da Selic, o mercado financeiro permanece nervoso, para não dizer neurótico. Não por causa dos fundamentos econômicos do País e muito menos por conta do desempenho das empresas do setor produtivo. E, sim, por obra e desgraça de um terrorismo financeiro importado, no suspiro nada resignado de Luiz Ignácio Lula da Silva, pré-candidato ao Planalto.
Como esse assunto já está fatigando nossa beleza tropical sim, a democracia brasileira à carga plena provoca espanto e pânico na banca internacional fiquemos com a rotina das mexidas (ou não) do Copom na taxa básica de juros. Mexidas à direita da vírgula, mas com massa crítica suficiente para reprimir negócios e suprimir empregos.
Para variar, o tal de mercado está futebolisticamente rachado.
Metade sustenta que a Selic deve permanecer congelada em 18,50% ao ano. Sobre lagoa de jacarés, urubus devem voar de costas. A recaída do risco Brasil, de fora para dentro, recomenda aos feitores da Selic uma decisão prudente: deixar tudo como está para ver como é que fica. Ou não fica.
O curioso é que toda vez que a autoridade monetária congela ou aumenta a taxa básica, ninguém se lembra de criticá-la por excesso de pessimismo ou por overdose de covardia. Quando ela se anima a rebaixar a taxa, ainda que de um quarto de ponto porcentual, a maioria dos analistas vê na decisão excesso de otimismo sem fiança na realidade. Ou seja: a alta é técnica; a baixa é frívola.
Antes, a Selic não baixava porque a meta inflacionária não deixava. Havia um complô inflacionista do petróleo importado, do câmbio ciclotímico, do reaperto tributário... Agora, a Selic não deve baixar porque Lula ameaça ganhar. Quer dizer: o medo de Lula lá não é dos tecnocratas brasileiros, mas dos analistas estrangeiros. Os mesmos analistas que hoje também perdem o sono na vigília de uma moratória... no Japão!
Deu ontem no The Wall Street Journal: para a Moodys Investors, o risco Japão já supera o risco Botsuana. Uau! Pois em abril, a agência Fitch Ratings atribuiu risco 22 à Argentina e risco 41 ao Brasil. Exatamente as mesmas agências que não viram nem cheiraram fumaça nas quebradeiras em cascata do México, da Tailândia, da Coréia, da Rússia. Ou da Enron.
Pelo sim, pelo não, o Banco Central auscultou na semana passada a bola de cristal dos bancos brasileiros para esta travessia de 2002. Eis o que eles enxergam até 31 de dezembro: 5,5% de IPCA, 2,4% de PIB, R$ 2,60 de dólar, 17% de Selic, 3,5% de superávit primário e US$ 4,2 bilhões de saldo comercial.
Em tempo: na semana passada, quando esse cenário foi desenhado, já havia o Efeito Lula lá em trânsito pelo mercado financeiro, o senhor da verdade.
Secos & Molhados
Está no zero
A inflação paulistana, medida pela Fipe, sumiu nos últimos 30 dias (até 7 de maio). Virou deflação de 0,03% na última quadrissemana do período. Primeira deflação desde novembro de 2000. Previsão para maio cheio: inflação de 0,10%.
Está no livro
Nos tratos à bola dos juros, o Copom não leva em conta a flutuação dos índices de preços no presente ou no passado. Aposta todas as fichas na variação desses índices no futuro de um trimestre a um triênio. É assim que as metas inflacionárias são estabelecidas para serem auto-realizáveis a golpes de austeridade monetária e de fundamentalismo fiscal.
Está no papo
Por falar em Fisco, a Receita Federal orgulhosamente apresenta um aumento de 12,9% na arrecadação federal do primeiro quadrimestre (sobre o mesmo período do ano passado, ainda na euforia do pré-apagão). Como a economia desaqueceu de lá para cá, tem-se que o governo deu de arrecadar mais sobre menos.
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]





