‘‘Mesmo que reconheçamos que não há como viver livre de riscos, temos todo o direito adquirido de saber a verdade sobre eles.’’
Andréa Kauffmann-Zeh, geneticista brasileira, editora da Nature


Tomada religada
Confirmado: o Ministério do Apagão será desligado em 30 de junho, ao fim e ao cabo de 13 meses corridos de vida, paixão e sorte.
Missão cumprida, suspira o ministro Pedro Parente, devolvendo a bola quadrada ao Ministério de Minas e Energia, que é do ramo.
Pedro Parente volta a dar expediente integral na chefia da Casa Civil.
No cargo há cinco semanas, o novo ministro da Energia, Francisco Gomide, já recebeu o bastão do recém-instalado Comitê de Revitalização do Setor Elétrico, herdeiro de atribuições exercidas, in extremis, pela Câmara de Gestão da Crise de Energia. Na prática, onde se lê Câmara da Crise, leia-se, doravante, Comitê de Revitalização. Cujos trabalhos devem começar com a posse do novo secretário-executivo do Ministério, Carlos Holtz, egresso da Eletrobrás.
A revitalização do setor elétrico inclui a reestruturação do próprio Ministério, com sobras para a Agência Nacional de Energia Elétrica - ambos empurrados para a segunda fila de decisão no choque do apagão abortado. O detalhe: até para não retardar ainda mais a revitalização do setor, a reestruturação da autoridade do ramo fica para o ano que vem. Ou melhor: para o governo que vem.
Parece que, mais uma vez, o compromisso da política energética (ou da falta dela) é com a urgência e não com a perfeição. Até aqui, sem perfeição nem urgência. O setor ainda está em curto no painel de controle das regras. As chuvas voltaram, as novas regras ainda não. É bom lembrar que a inexistência de regras seladas teve mais a ver com o clamoroso racionamento de 2001 do que as perdas do chamado coeficiente de hidraulicidade dos reservatórios nacionais.
Pelo sim, pelo não, o programa de revitalização, ainda sem o projeto de reestruturação, abre-se com a criação do comitê de sistematização... Sim, de sistematização das medidas de revitalização no vácuo de gestão cavado pelos choques de desestruturação...
Burocratice de lado, o que o brasileiro deseja saber, começando pelo presidenciável da vez, é se o apagão foi realmente suprimido ou simplesmente reprimido. De 0 a 100, qual seria o risco de uma nova crise de energia do tipo demanda maior que a oferta? E para quando?
O Comitê de Revitalização, que será presidido pelo próprio ministro Francisco Gomide (a partir do dia 28) deve usinar 33 medidas para implementação em 2002/2003. O novo regime de ‘‘comando único’’, tripulado finalmente por um ministro que entende de Energia (saravá!), facilita a produção técnica e a gestação política de tais medidas. Objetivo supremo: redefinir regras para relançar obras. Com chuvas ou sem chuvas. Com gás ou sem gás. No sol, no vento ou no bagaço.


Secos & Molhados

Sob tensão - Geradoras, transmissoras e distribuidoras ainda desfilam cicatrizes emocionais da quase ruptura geral em 2001. O estresse coletivo, com forte descapitalização dos grupos privados que se empolgaram pelo negócio, recomenda a urgente fixação de regras tarifárias, cambiais, tributárias e operacionais.
Sob risco - Já se fala abertamente pelos gabinetes da área que os investidores e/ou operadores privados, sentados sobre projetos de US$ 47 bilhões, reclamam de sobremesa garantias políticas de base. Entre outras, a de que não haveria uma reestatização ideológica e biológica do setor - no próximo governo.
Sob manto - O que não mais falta pelo lado da oferta é o manto protetor das represas por São Pedro reabastecidas. Nem o advento da autocontenção dos usos e dos abusos da energia pelo lado da demanda. Em abril de 2002, sobre abril de 2001, contenção da ordem de 7% no comércio, 14% nas fábricas e 17% nos domicílios.
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