‘‘Quem confere ferro, com ferro será ferido.’’
Pára-choque de caminhão na Via Dutra
O espeto de pau
Quem confere contas e riscos alheios, com inquéritos e auditorias dos próprios riscos e contas, será conferido. Efeito um tanto tardio do caso Enron, agências e bancos mercadores de ‘‘ratings’’ de empresas e de governos, incluído o risco país, acabam de se colocar na mira de autoridades monetárias e de instituições regulatórias. Estas últimas, vestindo a carapuça de omissão dolosa.
Onde? Nos Estados Unidos, morada do tribunal financeiro do mundo. Cujo martelo de pau é empunhado por ‘‘jovens de 29 anos’’, segundo Krugman, monitores virtuais (mas não virtuosos) de um tal de ‘‘mercado’’ que movimenta perto de US$ 1,7 trilhão ao redor do mundo. Yes, a cada 24 horas.
Vamos aos fatos que agora se abatem sobre essa bilionária indústria de boatos. A coisa começa pela censura oficial, emitida em abril, segundo a qual tais agências e bancos privados estariam acumulando ‘‘enorme poder de manipulação dos mercados globais de bolsas, fundos e moedas’’. Suspiro resignado com código de barra da poderosa Securities and Exchange Comission (SEC).
Estressada pelas carótidas, a SEC responde pela patrulha de um sistema de capitalização de risco que estoca, só nos Estados Unidos, ativos privados com valor de mercado da ordem de US$ 14,8 trilhões. Ou de US$ 19,4 trilhões antes do estouro da bolha de Wall Street, em março de 2000. A bolha da ‘‘irrational exuberance’’ das bolsas.
Pois bem. Desde agosto de 2000, a promotoria-geral do Estado de Nova York realiza investigação do ‘‘modelo de negócios’’ das maiores instituições americanas do ramo. Confraria liderada por corretoras e bancos de investimentos das heráldicas grifes Merryll Lynch, Goldman Sachs. Lehman Brothers, Morgan Stanley. Com sobras, claro, para as agências de padrão Moody’s, Fitch ou Standard & Poor’s.
Ou seja: a infantaria que nestas duas semanas catapultou o risco Brasil de menos 700 pontos para perto de 1.000. Por obra e graça do Efeito Lula lá. Quer dizer: a democracia brasileira em funcionamento pleno constitui um risco político e tanto para o capital volátil sem fronteira nem bandeira.
Quarta-feira, sem maior alarde, como convém a esse tipo de negócio, a SEC aprovou novas regras para tentar cercar o frango doido em campo aberto: o da manipulação dos mercados para além da especulação natural (e até necessária) que assoalha esse jogo - agora de alcance global e em tempo real.
Quinta-feira, o promotor Eliott Spitzer disse que a manipulação é uma ‘‘prática antiga’’. Só faltou dizer que o grupo Merrill Lynch, agora sob ‘‘rigoroso inquérito’’, está na mesma situação do tarado da anedota: simplesmente, um homem normal preso em flagrante.
Secos & Molhados
Conflito? - As novas regras, menos porosas ou menos gasosas, tentam desatar o nó dos chamados ‘‘conflitos de interesse’’. Rótulo técnico elegante para o que prefiro chamar de picaretagem financeira. Feita de manipulação (sem risco) disfarçada de especulação (com risco).
Para quem? - A coisa funciona assim: 1) o banco ou a agência desenha cenários negativos (ou positivos) sobre uma empresa um ou país; 2) antes da divulgação online das novas notas de risco (para baixo ou para cima), a venerável instituição antecipa o relatório a clientes especiais, parceiros do ‘‘insider information’’ do negócio.
Dois tempos - Então, ocorre o seguinte, no atual exemplo do Brasil: 1) antes do anúncio negativo, uns e outros saem vendendo títulos brasileiros que serão assim derrubados e comprando dólares no Brasil que serão assim revalorizados; 2) feito o estrago do anúncio, eles reaparecem na praça do ‘‘mercado’’ revendendo os dólares que subiram e recomprando as ações que caíram. Lindo, não?
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]

mockup