‘‘A economia agrícola é muito fácil quando seu arado é uma caneta e você está a mais de mil quilômetros das lavouras e dos rebanhos.’’ Dwight D. Eisenhower (1890-1969), 34º presidente dos EUA


Discurso sem recurso
Agregar valor ao produto exportado exige choques de modernização na economia e na sociedade. Esse salto de qualidade no coletivo faria algo mais que garantir um soberbo superávit comercial nas trocas com o mercado global. Daria um banho de afirmação nacional e de promoção humana para uso interno.
Eis o consenso, de resto acaciano, do 14º Fórum Nacional que se encerra hoje no Rio de Janeiro. Na discussão do tema central do evento (O Brasil e a Economia do Conhecimento), governantes, acadêmicos, consultores, empresários e sindicalistas cuidaram de mapear atalhos para o maior desafio da década: compatibilizar a modernização da economia com a expansão do emprego. Empregos de boa qualidade para trabalhadores idem.
Nessa linha, a da realização de produtos e serviços melhores a custos e preços menores, dar-se-ia a expansão do mercado interno pelo lado da oferta. Expansão tanto mais sustentável, se igualmente facilitada pelo lado da demanda por um aumento do emprego e por uma dilatação da renda do trabalho na composição da renda nacional. Freud explica? Ford explica.
Aqui o carro não pega. A fatia do trabalho na renda nacional não tem passado de 30% (ante 70% dos ganhos do capital). Em alguns países, já ocorre praticamente o inverso: dois terços do bolo para o trabalho, um terço para o capital. A eclosão recente da chamada Economia do Conhecimento acelera essa valorização do capital humano no processo econômico (assunto de ontem nesta coluna).
O enfoque do Fórum Nacional, organizado pelo Instituto Nacional de Altos Estudos (Inae), fundado e presidido por João Paulo dos Reis Velloso, contentou-se com propostas de um choque de qualidade no ainda desajeitado ‘‘export-drive’’ verde-amarelo. Um repertório de reflexões e sugestões para cada presidenciável ler na cama.
Agregar valor aos produtos made in Brazil e cacarejar essa cesta de ovos – eis a nova corrida contra o relógio da globalização de dentro para fora. Primeiro, porque até mesmo países emergentes estão duas décadas de dianteira na modelagem e operação da Economia do Conhecimento. Segundo, porque nosso coeficiente de competitividade deu de trombar pelas quebradas do mercado externo com o neoprotecionismo de americanos, europeus e japoneses.
Adeus Espírito de Doha! Nas barbas da OMC, fecham-se mercados entreabertos pelo neoliberalismo de mentirinha e retoma-se a adubação de subsídios a setores industriais em apuros e a negócios rurais na berlinda. Que o diga a nova Lei Agrícola dos Estados Unidos. Um tiro de Winchester 44 na incubadeira da Alca.


Secos & Molhados

Complicador – A nova Farm Bill já passou pela Câmara e deve ser ratificada pelo Senado. Ela vai de 2003 a 2012, ignorando o cronograma da Alca, bloco pan-americano idealizado por Washington. Para ignição em 2006. Os subsídios agrícolas ficarão pela média de US$ 18 bilhões por ano.
Sem papagaio – E mais: o crédito rural nos Estados Unidos gira em torno de US$ 720 bilhões por ano-safra. A juros sedosos. Aqui no Brasil, economia rural sem subsídios, o financiamento agrícola em banco não tem ido além de US$ 4 bilhões por ano-safra. A juros penosos.
Vai encarar? – No mercado global, com ou sem o reator da Economia do Conhecimento, o agronegócio brasileiro vai ter de enxugar gelo com toalha quente por tempo indeterminado. Nos créditos e nos tributos, estamos embarcando confiscos para brigar com subsídios. Um dos dois deve estar errado: ou o Brasil ou o mundo.

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