Joelmir Beting
Queria comprar um carro novo. Mas, com a volta do déficit público, já estou preocupado com os impostos que terei de pagar em 2011. Paul Krugman, economista americano
O risco da águia
Já que o risco País está na moda, Brasil promovido a armazém de pancada, que tal dar uma espiada no risco país dos Estados Unidos? Afinal, a banca internacional elege Washington como Índice 100 para distribuir notas de comportamento ao restante do mundo. E, pelo cheiro da brilhantina, as coisas andam malparadas para as contas públicas do Tio Sam.
Tanto assim que o FMI acaba de sentenciar que o clamoroso déficit externo em conta corrente dos Estados Unidos constitui a nova bomba-relógio depositada sob a cama da economia global. Nos cálculos do Banco Morgan Stanley (que acaba de rebaixar a nota do Brasil), o déficit americano deve cravar 5% este ano e 6% no ano que vem.
Trata-se do maior passivo nacional desde 1971 - quando Nixon destruiu o lastro ouro do dólar. O epicentro desse provável sismo monetário repousa no rombo orçamentário do governo central. Que passou rapidinho de um superávit de US$ 236 bilhões, no ano-fiscal 2000, para algo acima de US$ 150 bilhões agora em 2002.
Como é sabido, déficits públicos são financiados por dívidas públicas. Governos no vermelho emitem títulos dentro e fora de casa para a rolagem das dívidas que fazem a blindagem dos déficits. Como nem Bin Laden imagina a quebra de Washington, investidores de meio mundo compram em fila indiana os títulos americanos. Eles se contentam com juros mínimos, apostando em segurança máxima.
Ou em risco quase zero, para não dizer zero.
O problema é que os Estados Unidos vão ter de captar por ano, no mercado global, mais de US$ 2 bilhões por dia para returbinar um déficit externo já da ordem de US$ 466 bilhões.
Qual é o problema? É o que se pergunta o secretário do Tesouro, Paul ONeill. Ele mesmo responde à revista inglesa The Economist:
O déficit externo em conta corrente é um conceito meramente contábil desprovido de significado sério. Ele apenas reflete o fato de que os estrangeiros confiam nos títulos americanos e não abrem mão deles. Ora, essa mera contrapartida contábil do afluxo líquido de capital tem a ver com o sucesso e não com o fracasso dos Estados Unidos.
Pena que o mesmo Paul ONeill considere esse tal de déficit externo o verdadeiro calcanhar-de-aquiles do Brasil - déficit hoje da ordem de 4,2% do PIB. No que se faz acompanhar de veredictos sinistros de bancos ouriçados agora emitidos em nome do Efeito Lula.
Resultado: os títulos brasileiros (também os privados) obrigam-se a pagar juros quatro vezes maiores que os dos títulos americanos.
Secos & Molhados
Desvio de rota - O orçamento americano resvalou do azul para o vermelho por obra e graça da desaceleração da economia e da queda na arrecadação tributária (por baques nos negócios e cortes nos impostos). E, desde 11 de setembro, o dia que ainda não terminou, também por aumento de gastos militares e de incentivos fiscais.
Bom pretexto - Gastos militares? A escaramuça no Afeganistão consumiu até aqui menos de US$ 10 bilhões. Ninharia para uma conta anual da Defesa superior a US$ 350 bilhões. O problema é que essa conta, graças a Bin Laden e a Saddam, acaba de trocar o viés de baixa pelo viés de alta.
Juros do Fed - Com o desemprego cravando 6% em abril (maior taxa mensal desde agosto de 1994) e com o mercado topando financiar o déficit externo a qualquer juro, Alan Greenspan e ilustres pares do Fed reúnem-se hoje. Eles devem manter a taxa básica no piso de 1,75%.
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