Joelmir Beting
Nenhum banco estrangeiro ousaria influir no processo eleitoral brasileiro. O que cada um deles quer é resguardar o retorno do dinheiro.
Reynaldo Whitaker, cientista político.
Palpite infeliz
Primeiro ponto: Lula ainda não ganhou. Segundo: se ganhar, vai governar. Terceiro: se governar, vai ficar na bitola do que pode ser feito - e bem-feito, se possível. Quarto: também ele, como os demais, ainda está bem distanciado do que deveria ser feito.
Ou como já foi dito neste espaço: a) o Brasil não consegue fazer nem metade do que pode realmente fazer; b) o que pode ser feito é menos de um terço do que deveria fazer; c) logo, com Lula ou sem Lula lá, temos de nos contentar com metade de um terço do Brasil que sonhamos.
Ocorre que esse Brasil ainda por fazer, dentro de um mundo idem, virou pasto e repasto de agências e de bancos globais que deram de explorar um novo filão de ouro: vender a investidores, a empresários e a governantes mapas astrológicos recheados de álgebra financeira, de psiquiatria econômica e de quiromancia política. A coisa leva o nome charmoso de rating.
Claro, há produtores de rating e picaretas de rating nesse esotérico mercado. Afinal, o acionista em primeiro lugar e o depositante em segundo têm o sono salvo por avais de classificadores de riscos alheios - mister que deveria ser melhor exercido por um avalista de primeira instância chamado FMI.
Certo? Inventado em 1944 para disciplinar as moedas na reconstrução mundial do pós-guerra, o FMI deixou-se rebaixar de árbitro de câmbio para auditor de crédito no interesse da banca privada - bisbilhotando as contas e os planos dos países devedores. Como não haveria clima político para classificar riscos de governos por uma confraria de governos (o próprio FMI), dá-se nos tempos escaldados de hoje o fastígio do rating de agências e de bancos oniscientes, ungidos pelo dom divino da ubiquidade online.
Três bancos globais acabam de pespegar no lombo do Brasil o rebaixamento das nossas notas de comportamento (com o equivalente levantamento dos nossos juros do endividamento). Por quê? Porque a candidatura de Lula está em crescimento.
Aos solertes analistas políticos do rating do Brasil, plantados em Wall Street, caberia lembrar que esta quarta vitória consecutiva de Lula nas prévias eleitorais (1989/1994/1998/2002) ainda não conseguiu transbordar o histórico mercado cativo do PT. Algo parecido, nas rampas do Planalto, com um terço do eleitorado nacional.
Aos teólogos do partido caberia perguntar: por que Lula não lidera com 51%, com 66%, com 75%? Afinal, se estamos no bagaço econômico e no calabouço social, um partido de oposição consistente (e não apenas militante) deveria liderar as prévias, nesta altura do calendário, com mais de metade das intenções de voto.
Secos & Molhados
E o Segundo? - Vale igualmente reprisar que temos segundo turno no Brasil - os americanos não sabem o que é isso e deram até mesmo de não mais saber como contar votos no turno único. No primeiro, o voto é de seleção. No segundo, de exclusão. A França que o diga neste domingo.
Aritmética - A perspectiva do segundo turno exige uma análise política diferenciada. O capital eleitoral de Lula não dispensa um segundo turno: 49,9% nas urnas valerão tanto quanto 29,9% nas prévias. Não elege candidato algum.
Palpiteiros - Afinal, quem tem medo de Lula? O tal de mercado, refém do capital volátil. Não é o capital produtivo do Brasil e do mundo. De resto, bancos estrangeiros têm o direito de nada entender de política brasileira - assim como, na maioria, pouco entendem de Economia brasileira.
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