Joelmir Beting
Extremistas consideram Le Pen radical demais.
Título de 8 colunas em O Estado de S.Paulo (23/4/2002)
Os desencantados
O segundo turno é domingo e o presidente Jacques Chirac deve golear o macabro Jean-Marie Le Pen por 5x1. Nunca foi tão fácil a um presidente da França faturar a reeleição em segundo turno. E ungido, ao que parece, por um índice mínimo de abstenção.
O eterno candidato da extrema direita canina cometeu a façanha de defenestrar do páreo o primeiro-ministro Leonel Jospin. O líder socialista era apontado, até a última urna do primeiro turno, em 21 de abril, como favorito em um segundo turno na pregação compacta da mídia de esquerda.
E tome um dilúvio de sociologia política na França, na Europa e no mundo para explicar o orgasmo político de Le Pen. Nove em cada dez analistas tentam desvendar o sucesso parcial da extrema direita satirizada, perdendo de vista o exame do rotundo fracasso da esquerda incensada. O brutamontes Le Pen não venceu. O estadista Jospin é que perdeu feio.
O certo, pois, é discutir as causas do vexame da esquerda, antes de espancar a vergonha da direita. O presunçoso sistema político à francesa se deixou abalar por mero efeito estatístico. A massa crítica da Frente Nacional, tripulada por Le Pen, cravou 16,9%, como que reprisando as urnas de 1988 (14,4%) e de 1995 (15,1%). Esse avanço estatístico deu-se simplesmente porque a esquerda respondeu agora por dois terços de um não comparecimento recorde da ordem de 28% para um estoque de 41 milhões de votantes.
Estatisticamente, os 4,8 milhões de votos agora brandidos estrepitosamente por Le Pen são exatamente os mesmos 4,8 milhões obtidos, sem maior alarde, em 1995. Ou seja: o mundo não acabou antes nem vai acabar agora.
O funesto programa de governo da Frente Nacional agregou alguma coisa pelas bordas caso da invenção dos campos de trânsito para os imigrantes. No miolo, o plano reprisa patadas do tipo rejeição da União Européia, resgate da moeda nacional (franco), proselitismo antiárabe e antijudeu e todo um rosário nacionalistóide informado não pelo amor à pátria, mas pelo ódio ao mundo.
O economista americano Paul Krugman chega a comparar os 16,9% de Le Pen em 2002 com os 18,4% de Ross Perot em 1992 meteórico representante da direita raivosa made in Usa. A diferença é de discurso. Nos Estados Unidos, a direita militante agarra-se a valores tradicionais e ao advento da pax americana em escala global. Assim municiada, ela está hoje no poder com o texano George Bush, o filho. A extrema direita francesa, escreve Krugman, avacalhou com o governo dito socialista de Jospin, mas não tem a menor chance de chegar ao poder. Seria um séisme (terremoto), na manchete do conservador Le Figaro.
Secos & Molhados
Por exclusão
Enquanto o socialista Jospin capota nas curvas da Terceira Via, o presidente Chirac tem a faca e o roquefort na mão para cozinhar a França em banho-maria por mais seis anos. O voto é de exclusão. Seu capital eleitoral não chega a 20%, no veredicto bem mais fiel do primeiro turno.
Perna de pau
Paradoxalmente, o sistema político do século 18 consagra no século 21 um carreirista desgastado por dossiês irrespondíveis de corrupção contumaz nos seus 18 anos corridos com crachá de prefeito de Paris. Que falta de opção! Perder para Chirac e para Le Pen é como se a esquerda gaulesa tivesse agora chutado um pênalti sem goleiro para fora!
Desencanto
Já que é para fazer sociologia de bistrô, o buraco deve ser mais embaixo: o do desencanto terminal da sociedade, não com as instituições políticas, mas com os políticos à direita, ao centro e à esquerda que dela se servem e se locupletam.





