‘‘Eu estaria até disposto a entender a economia se me convencessem de que alguém entende.’’ (Luis Fernando Veríssimo, jornalista e escritor)

Somos baratos

Em relação ao dólar, pela paridade do poder de compra de cada moeda no respectivo mercado interno, o real está desvalorizado em 38%. Data: 23 de abril de 2002. Taxa real de câmbio no dia: R$ 2,34 por dólar. Fonte: Mac PPC da revista The Economist.
Mac PPC? Que bicho é esse? A coisa bem que poderia adotar a cunhagem de McDollar - como já foi tratado aqui nesta coluna. Trata-se da primeira e única moeda realmente global. Ela vem sendo emitida virtualmente, desde 1986, pelo centro de pesquisas da editora inglesa, fundada há 88 anos.
Recapitulando: a paridade do poder de compra (PPC), no caso, está em dividir o preço local em dólar do sanduíche Big Mac pelo preço dele nos Estados Unidos. Preço médio nas lanchonetes de Nova York, Atlanta, Chicago e São Francisco.
Fundamento monetário da PPC, sob o tampão do mercado cambial sem nexo: a longo prazo, as taxas de câmbio tendem a assumir valores que equalizam os preços de uma mesma cesta de bens e serviços em qualquer moeda.
A cesta da The Economist é o sanduíche Big Mac, produzido hoje em 123 países, sob rigoroso padrão de ingredientes, processos e serviços. Na montagem desse McDollar, a revista faz a abstração de impostos e encargos amoitados nos preços de balcão.
Em matéria de produto padronizado, em escala global, não há nada parecido na economia moderna. Nem automóvel, computador, cigarro ou camisa de algodão. Exceto a secular aspirina da Bayer.
A provecta The Economist embarcou na Big Mac PPC em tom de brincadeira. Na época, 1986, o G-7 fazia reunião no Plaza de Nova York para pactuar uma resfriada em bloco do ‘‘strong dollar’’ da Reaganomic. Ou seja: o câmbio sempre foi uma conveniência política de governos acima da contingência técnica dos mercados.
A partir das crises globais da Ásia (1997) e da Rússia (1998), governantes, empresários, consultores e acadêmicos deram de levar a sério essa tal de PPC. Até para saber, à luz da economia real, qual seria a taxa cambial efetiva de cada moeda nacional.
Pois bem. Pela Big Mac PPC, atualizada em 23 de março, aqui estão as sete moedas mais desvalorizadas do mundo em relação ao dólar americano: 1) peso argentino, -68%; 2) rand sul-africano, -64%; 3) rublo russo, -50%; 4) iuan chinês, -49%; 5) bath tailandês, -49%; 6) peso filipino, -48%; 7) real brasileiro, -38%.
Quer dizer: no câmbio, somos o sétimo país mais competitivo (ou mais barato) do mundo.


Secos & Molhados

Dólar acima - Pelo mesmo McDollar, quais são as sete moedas mais sobrevalorizadas do mundo? Pela ordem: 1) coroa norueguesa, +64%; 2) franco suíço, +53%; 3) lira turca, +21%; 4) coroa dinamarquesa, +19%; 5) bolívar venezuelano, + 17%; 6) peso dominicano, +17%; 7) libra inglesa, +16%.
Competidores - Pelo mesmo critério, o euro está desvalorizado em -5% e o iene japonês em -19%. São os maiores adversários comerciais dos Estados Unidos. E o que dizer da tigrada, liderada pela China (-50%) e Hong Kong (-42%)? Cingapura é um fenômeno: moeda desvalorizada em 27% para um superávit em conta corrente de 22% do PIB.
Referência - Só para constar, em 23 de abril, o Big Mac valia US$ 2,49 nos Estados Unidos, US$ 3,81 na Suíça, US$ 1,55 no Brasil, US$ 1,27 na China e US$ 0,78 na Argentina.
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