‘‘Não devemos planejar o futuro pelas lições do passado. Nossa experiência humana é repetição e não sabedoria.’’
Edmund Burke (1729-1797), filósofo irlandês
Grãos de ouro
A soja emplacou, esta semana, na Bolsa de Chicago, rainha do mercado, a mais alta cotação desde 11 de setembro, o dia que ainda não terminou. Dois fatores ajudaram a soerguer a tonelada do grão para a faixa de US$ 175: redução prevista do novo plantio americano e confusão nunca vista no mercado argentino.
Segundo maior produtor e exportador do complexo soja (grão, óleo e farelo), o Brasil navega a favor da maré neste ano safra 2001/2002. A colheita total, já quase toda sacada da terra, é a maior de todos tempos: perto de 42 milhões de toneladas ou 12% acima do recorde de 2000/2001.
Como o preço médio deste ano deve ficar ao redor do valor médio do ano passado (US$ 174) e como dois terços da colheita foram vendidos antecipadamente para fábricas e tradings, tem-se que a renda real do segmento, em dólar, crescerá ao redor de 10%.
Os embarques do complexo soja prometem somar US$ 5,6 bilhões, quase igualando o recorde de 1997, de US$ 5,7 bilhões.
A soja brasileira causa espanto em meio mundo. Ela explodiu em volume e disparou em qualidade. Em apenas três décadas de introdução, adaptação e melhoramento, essa lavoura importada de países temperados e/ou refrigerados revelou-se espetacularmente ‘‘ecolojada’’ para as condições tropicais de uso e de abuso.
Claro, não por obra da própria natureza. Ela incorpora, hoje, precisamente três décadas de pesquisa e experimentação ‘‘made in Embrapa’’, na cabeceira de 21 instititutos nacionais de pesquisa e desenvolvimento. De 1975 a 2001, foram apurados mais de 250 cultivares, a partir de 105 campos de testes, envolvendo mais de 42 mil linhagens e perto de 260 mil progênies.
Presidente da Embrapa, Alberto Duque Portugal diz à coluna que para cada real de investimento no Centro de Pesquisa da Soja a sociedade brasileira vem obtendo um retorno líquido de R$ 74.
Retorno que tem sua face visível nos atuais indicadores de desempenho do setor.
Seguinte: a produtividade da soja brasileira já oscila em torno de 2,5 toneladas por hectare cultivado e deixa na poeira a produtividade da soja americana, estacionada em 2,3 toneladas. De sobremesa, o grão brasileiro, sobre ser mais resistente e mais precoce, carrega maior teor de óleo, filé-mignon do negócio.
Washington tem medo, sim. Em 30 anos, a safra brasileira saltou de 1,4 milhão para 42 milhões de toneladas. Nossa fatia na produção mundial escalou de 3,5%, em 1970/71, para 11% em 1994/95 e para 23% em 2001/2002. A fatia americana baixou, nessas três datas, de 76% para 67% e para 46%.
Não por acaso, entidade de produtores americanos e canadenses acaba de oferecer aos produtores brasileiros um prêmio de US$ 100 para cada hectare que por aqui não vier a ser replantado em 2002/2003. Vixe!
Secos & Molhados
Cobertura
Produção cada vez maior por hectare ocupado, a soja não se deixou atrair pelo canto de sereia da lavoura extensiva de fronteira. No cerradão brasileiro, a produtividade aproxima-se de 2,7 toneladas por hectare. Terra ácida, sim, mas corrigida por calcário e fosfato da própria região.
Cerradão
Os cerrados do Brasil Central, do norte de Minas ao sul de Mato Grosso, deixaram de ser o endereço da agricultura de subsistência, com pobreza endêmica dos sem-terra e dos com-terra. Dali tirava-se meio boi por hectare de pasto ruim e Zé fini.
Eldorado
A bordo de muita pesquisa, capital e talento, com a ousadia do chamado ’’ espírito de fronteira’’, estamos fazendo do cerradão uma cadeia de valor sem paralelo no agronegócio mundial. Com destaque, por enquanto, para a soja, o milho, o trigo, o café, o algodão, o porco e o boi.
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]

mockup