Joelmir Beting
Pode-se falsificar de mil maneiras os balanços de uma empresa. Mas ainda não nasceu o gênio capaz de falsificar os salários dela.
Millôr Fernandes, jornalista e escritor
Risco de quem?
Quais são os três países mais vulneráveis do mundo, agora em 2002, pela ótica dos investidores sem fronteira nem bandeira? Argentina? Israel? Azerbaijão? Venezuela? Egito? Casaquistão? Colômbia? Filipinas? Croácia? Turcomenistão? Em quais países do mundo você não ousaria aplicar um centavo?
Eis a trinca do terror: Turquia, Líbano e Brasil. Assinado: Fitch Ratings, agência privada classificadora de riscos. Amarrado em março e divulgado na semana passada, dia 16, o ranking da Fitch classifica 43 países emergentes e coloca a Turquia com a mão na lanterninha, em 43º lugar. O Líbano transita em penúltimo (42º) e o Brasil no antepenúltimo (41º).
E quais são os três países menos vulneráveis ou mais confiáveis? Pela ordem, o México, a Malásia e a Costa Rica. E a Argentina? Ainda tentando juntar os cacos do calote interno e da moratória externa, o vizinho estrebuchado figura em 22º lugar. Bem à frente do disciplinado Chile, em 33º. E a Venezuela em transe político? Aparece em honroso 10º lugar. E a Colômbia em pé de guerra não é de hoje? Em orgulhoso 6º lugar. Pode?
Para a Fitch, tudo pode. Ela não está sozinha no rebaixamento sistemático do Brasil. Ao riscar em nossa pele a tatuagem de vulnerabilidade máxima (de governos e de empresas), ela vai na cola da Moodys e da Standard & Poors. Agências que, desde 1998, situam o Brasil no rodapé da preferência do capital volátil, o mais arisco dos animais na floresta econômica dos povos.
A triste verdade é que o relatório da Fitch é contraditório, para não dizer desconexo (ou de alto risco). O Brasil vai para a rabeira do mundo dito emergente, segundo ela, porque houve desaceleração da economia americana, porque está havendo nova escalada do petróleo, porque há juros em viés de alta nos empréstimos internacionais, porque temos pepinos nas contas externas e nas dívidas internas, porque ainda não escapulimos do contágio do colapso da Argentina (que ela coloca no tranquilo 10º lugar).
Só faltou dizer que nosso risco soberano também tem a ver com Lula e com Romário. O primeiro, porque já ganhou pela quarta vez as prévias presidenciáveis. O segundo, porque não vai mesmo buscar nosso penta lá no Japão.
Será que o Brasil é realmente o país mais vulnerável a uma reversão transitória da prosperidade americana? Será que o Brasil é o país mais dependente da importação de petróleo? Será que o Brasil é realmente o país mais esnobado pelo capital produtivo das empresas transnacionais? Será que o Brasil é de fato o país hoje mais desmantelado na economia, na política e na sociedade?
Secos & Molhados
Juros & juros
O Brasil deve ao mundo 39% do PIB. O México, 48%. O mercado americano absorve 83% das exportações mexicanas e apenas 22% dos embarques brasileiros. Mas, por obra e graça de avaliações de padrão Fitch, o risco amoitado nos juros é de 3% para o México e de 11% para o Brasil.
Mistério
Terceiro maior risco do mundo emergente pela Fitch, o Brasil pontifica como terceiro menor risco para o capital produtivo das múltis no ranking conjunto do Lehman Brothers e do Eurasian Group. Só estamos atrás da Polônia (1º) e da República Checa (2º). Pois, no ranking da Fitch, a República Checa está em 24º lugar e a Polônia em 40º.
Finalmente
Eis que a poderosa Securities and Exchange Commission (SEC), ainda abalada pelo caso Enron, acaba de anunciar mudanças nas regras de rating e de propor perícias nas agências americanas do ramo. Que estariam com enorme poder de manipulação dos mercados em todo o mundo. Uau!
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