‘‘Não é que os argentinos não vejam a solução. O que eles não mais enxergam é o problema.’’
Juliano Bastide, sociólogo
Cadê o tunel?
Maradona jura que os brasileiros ainda estão à espera de uma luz no fim do túnel. Pelé responde de bate-pronto que, pior ainda, os argentinos já estão procurando o túnel. Cadê a saída? Cadê a passagem? Cadê o futuro? Cadê o túnel?
Ministros e presidentes pulam fora do barco à deriva sem a menor cerimônia. Articula-se abertamente a antecipação das eleições presidenciais, marcadas para setembro do ano que vem.
Fala-se na adoção, até lá, de um câmbio de transição tipo âncora. Ou mais precisamente: tipo bote salva-vidas. Que poderia ser uma paridade fixa peso-dólar 3x1 ou uma banda estreita pero deslizante.
Com margem de 10% a partir dessa cotação 3x1.
Pajelança de lado, os 37 milhões de argentinos literalmente embasbacados insistem na rotina dos panelaços sem resultados. Eles deram de perder os empregos e agora também os depósitos.
A taxa de desocupação aberta já passa de 22% no país ou de 27% na Grande Buenos Aires. E a poupança coletiva em bancos sem lastro ensaia trocar o corralito de Cavallo pelo calote de Lenicov.
Sim, o Plano Bonex, aviado pelo já defenestrado ministro da Economia, significa trocar depósitos bancários barrados pelo corralito por títulos públicos micados pela promessa de resgate a perder de vista. Ou só em meados de 2012. Calote, sim, avalia o embaixador brasileiro na Argentina, José Botafogo Gonçalves. Com a ressalva diplomática: ‘‘Bem, não há outra saída.’’
O problema que os argentinos se negam a enxergar no meio da cerração dessa crise rosca sem-fim: acabou o dinheiro. Os bancos não têm caixa para bancar saques em bloco. Pois foi justamente o medo de uma corrida bancária com quebradeira sistêmica que forçou o todo-poderoso Cavallo a apelar para o corralito, em 2 de dezembro.
Domingo Cavallo aguentou-se 17 dias no lombo da quase rebelião popular. No dia seguinte, renúncia do presidente De la Rúa. O corralito foi declarado inconstitucional pela Corte Suprema em 1º de fevereiro. E daí? No hay la plata, suspirou o biônico Eduardo Duhalde, ungido em 1º de janeiro. O Plano Bonex embarca na mesma exposição de motivos: os bancos não têm pesos nem dólares para honrar aplicações em dólares e em pesos.
A enrascada platina é cavernosa. Ela não foi improvisada pelo ‘‘modelo neoliberal’’ dos anos 90. Ela foi cavada pá a pá em cinco décadas corridas de alienação política dolosa, sob o guante de um populismo caudilhista digno de uma republiqueta embananada de Woody Allen. Ou como já foi dito aqui: a) não organizar em meio milênio um país ainda por fazer como o Brasil é compreensível; b) arrebentar em meio século um país organizado como a Argentina é inadmissível.
Secos & Molhados
Distresse
De estresse em estresse, a economia argentina acaba de mergulhar no distresse - a depressão terminal. No primeiro trimestre, queda de 19% no PIB industrial sobre o primeiro trimestre do ano passado (então com crescimento zero). Nem mesmo a clamorosa desvalorização do peso consegue ressuscitar a competitividade interna e externa do ‘‘made in Argentina’’.
Afundando
A Fundação Capital aponta para 2002 uma recessão de 12%. Com inflação acima de 80%. Uma estagflação histórica. Ou histérica. No pano negro de fundo, a moratória sem opção da dívida interna e da dívida externa.
Sem contágio
Felizmente, o problema da Argentina virou exclusividade dos argentinos. Até prova em contrário, o Brasil deve continuar a salvo do contágio. De resto, contágio que não se dá aqui, mas em Wall Street.
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