Joelmir Beting
Alguém pode me explicar o que está acontecendo com as teles? Tenho o dedo no pulso do paciente Brasil e preciso saber tudo.
Armínio Fraga, presidente do Banco Central
Fora do gancho
Que tal uma Câmara de Gestão da Crise de Telefonia? Sim, clonagem tempestiva da Câmara de Gestão da Crise de Energia.
Dizem que a segunda salvou o Brasil pelo gongo do apagão físico que não houve. A primeira salvaria o Brasil de um apagão mental já desencadeado na arena do ouriçado mercado telecom.
Documento emitido supostamente em nome das três dezenas de teles privadas pintou uma crise maior que aquela esboçada pela ressaca do setor em 2001. Parece que a aposta foi no plantio de um ambiente político favorável à criação de um spa de capital público do padrão do Proer dos bancos. Se a CPI do Proer acaba de concluir pelo acerto do programa de desmontagem de um colapso sistêmico no setor bancário, por que não um Protel sob medida para refertilizar as teles nesta entressafra dos negócios do ramo?
A equipe econômica, dona do cofre, já rebateu a sugestão oblíqua de um pronto-socorro financeiro. Por cima e ao largo da Anatel, agência reguladora e arbitral do megamercado. Esta parece perder o rumo na crise de telefonia, tal como a Aneel tomou um chapéu na crise de energia.
Sexta-feira, 26, haverá um encontro de 30 executivos das teles no Iate Clube do Rio de Janeiro. Na cabeceira da mesa, não o presidente (interino) da Anatel, Antonio Valente, mas o presidente do Banco Central, Armínio Fraga. O detalhe político: essa reunião de trabalho com a autoridade monetária foi agendada em fevereiro. Nada a ver com as telefofocas planaltinas da semana passada.
Crise da telefonia? Tratei desse pepino na coluna O mico de ouro (13/4/2002), que pode ser relida aí no meu site. Em resumo, o setor padece de indigestão estratégica. Investiu mais do que devia, mais do que podia e mais do que queria em menos de cinco anos de privatização do Sistema Telebrás.
A um só tempo, as teles tiveram de cobrir metas leoninas de expansão e de modernização do sistema e lances gasosos de desregulamentaçao dos mercados cativos e de reestruturação patrimonial das empresas. A corrida contra o relógio da inovação tecnológica tem sido tão dramática quanto a da reorganização mercadológica.
Na crista dessa revolução corporativa, as matrizes externas, ainda mais estressadas pós-implosão da irracional exuberância das novas tecnologias e dos novos negócios da informação/comunicação, cortam a recapitalização das subsidiárias e das parcerias em todo o mundo. Entre nós, queda dos mercados, das receitas, dos lucros, dos planos e dos lugares de trabalho. Desde o setembro negro, nada menos de 54 mil profissionais perderam o emprego nas teles do Brasil.
Secos & Molhados
Nova ordem
O que não falta é discussão futeboleira das atuais cólicas da telefonia. Crise de gestão? Crise de capital? Crise de exaustão? Crise do modelo? Crise de transição? Crise de mercado? Crise de apagão? Única certeza: os investimentos não contratuais estão saindo para o acostamento. A nova ordem é faturar (a qualquer custo) e não mais expandir (a qualquer preço).
No contrapé
As teles e seus fornecedores desfilam até 60% de capacidade ociosa. O contrapé do celular é maior que o da fixa. Os leilões da banda C, com sobras para a D, negaram fogo. Igualmente jururu, o brasileiro deu de falar menos (72% no pré-pago). O gasto médio por usuário caiu 23% em 2001. Previsão de até 41 milhões de assinantes em 2002 não deve passar de 35 milhões.
Agenda dura
Nas tratativas com o governo, as teles reclamam da porosidade das novas regras de competição e de compartilhamento de redes. Questionam o congelamento societário até 2003 e voltam a pedir a cabeça do garrote tributário amoitado em cada pacote tarifário. A cunha fiscal na tarifa final é de 41%. Lá fora, abaixo de 10%.
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