Ainda nos eixos

O tempo joga a favor e não contra o programa de estabilização. Não há fadiga do material na execução do Plano Real. Com a consolidação progressiva do processo de estabilização da moeda, estão criadas as condições objetivas para a retomada do crescimento sustentado da poupança, do investimento, da produção e do emprego. Assinado: Fernando Henrique Cardoso, presidente da República.
Eis o resumo do pronunciamento do presidente na reunião ministerial de ontem. Espécie de prestação de contas do que já foi feito em 24 meses de governo ou em 34 meses de Real. Igualmente uma carta de intenção sobre o que ainda deve e pode ser feito na segunda metade do governo.
Para o presidente Fernando Henrique Cardoso, a inflação está finalmente sob controle. Sem congelamento, sem tabelamento, sem CIP, sem Sunab, sem Dallari. O sucesso do Real no ‘‘front’’ inflacionário resulta de um tripé que não está no noticiário econômico: 1) desindexação voluntária e terminal de preços e contratos em liberdade; 2) modernização das empresas em geral, com redução de custos, de margens e de preços reais; 3) competição aberta e franca como nunca se viu no Brasil do pós-guerra.
Como é do protocolo universal, o presidente esquivou-se de pensar em voz alta sobre a política cambial. Preferiu destacar a correção de desvios na política monetária criogênica: 1) crédito dobrou em volume e em qualidade; 2) prazos de captação e de aplicação foram ampliados; 3) juros primários, vulgo taxa Selic (onde o governo se financia na rolagem da dívida mobiliária), recuaram do pico de 4,26%, em maio de 1995, para a faixa de 1,80%, neste último trimestre do ano.
Faltou dizer: no final do próximo ano, a mesma taxa Selic estará abaixo de 10% ao ano. Nos créditos do BNDES, para investimentos produtivos, a TJLP já está abaixo de 11% ao ano. Na descompressão do arrocho monetário, o governo joga com uma certeza: não há inflação de demanda na carreira do Real. Com expansão de 43% em 30 meses, a cesta básica acumula inflação abaixo de 1% no mesmo período.
O presidente voltou a festejar, sem explicar, o estrepitoso processo de desconcentração de renda patrocinado até agora pelo Real. Limitou-se a destacar indicadores do consumo redivivo da população de baixa renda. Menina dos olhos da estabilização.
Crescimento 1

- O presidente reafirmou: não houve, não há nem vai haver recessão no Brasil do Real. O que houve, está havendo e pode haver no futuro é a estagnação (ou mesmo a depressão) de setores ainda não ajustados à lógica da estabilização, da desindexação e da concorrência.
Crescimento 2
- De 1993 a 1998, na aposta do presidente, citando projeções da equipe econômica, o PIB brasileiro estará acumulando uma expansão de 30%. Distante do desejável e distante do sofrível. Taxa anual de 7% é promessa para o triênio 1998/2000. Com PIB de R$ 1 trilhão.
Crescimento 3
- Para Fernando Henrique Cardoso, o importante na retomada do crescimento é o novo padrão de financiamento. Antes, o Brasil só crescia a golpe de poupança externa e de poupança falsa (títulos com função de moeda, sem lastro em produto). Dobradinha: dívida e inflação.
Crescimento 4
- Doravante, vamos acelerar na poupança real, com crescente participação do capital de risco no lugar no capital de aluguel. Não menos importante: crescimento comboiado pelo setor privado e não mais pelo setor público. Cujo ciclo, que foi bom, está nos estertores.

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