Joelmir Beting
Os grandes navegadores devem sua reputação às grandes tempestades. Epicuro (341-270 a.C.), filósofo grego
A recarga da águia
Prêmio Nobel de Economia de 1970, o professor Paul Samuelson acertou mais uma. Ele relembrou, em abril do ano passado, que os economistas americanos adivinharam nove das duas últimas recessões nos Estados Unidos. Agora, abril de 2002, um adendo: os cenaristas por dever de ofício colecionam a oitava previsão furada em dez tentativas.
Nem mesmo a imolação de Manhattan em 11 de setembro conseguiu fazer a águia capotar no pouso forçado para reabastecimento das provisões de bordo. Paul Samuelson pondera que a economia americana tem energia de sobra para voltar a crescer por mais uma década. Não mais pela média de 5% ao ano, mas pelo torque sustentável de até 3% ao ano.
Desaceleração não é recessão. Desaceleração é continuar crescendo, só que mais devagar. A estagnação também não é recessão . É repetir no ano corrente o mesmo produto do ano anterior (vulgo crescimento zero).
Em 2001, houve queda nos empregos, nos salários e nos lucros. Mas a redução física da produção (recessão) ocorreu apenas no trimestre março/maio de 2001. Na teoria, recessão precisa de pelo menos dois trimestres corridos de marcha à ré do PIB.
Resultado: a Agência Nacional de Pesquisa Econômica, que atende pela sigla em inglês NBER, fundada em 1921, acaba de relançar no debate acadêmico a necessidade de se apurar um novo conceito de recessão nos parâmetros da economia moderna. A métrica tradicional não estaria sopesando adequadamente os ganhos de produtividade da economia na evolução do produto nem na formação do preço.
De resto, na linha da provocação de Alan Greenspan em pronunciamento no Senado em fevereiro de 2000, três semanas antes do estouro da bolha chipada das bolsas. Na ocasião, o senhor dos mercados deixou escapar que a expansão do PIB seria maior que a da taxa oficialmente assumida e que a inflação medida pelo IPC seria menor que a da taxa reconhecida.
Membro da NBER, grupo de seis notáveis, o professor Robert Gordon adianta uma ressalva: o crescimento da produtividade em plena desaceleração da economia foi uma nova tendência ou não teria passado de uma anomalia? Se tudo não passou do impulso de banguela residual da revolução tecnológica e administrativa dos anos 90, é caso de anomalia.
O presidente da NBER, Robert Hall, prefere ponderar o seguinte: a revolução tecnológica é uma onda e não uma bolha. A bolha dela já estourou, mas a onda levantada nos anos 80 continua produzindo novas ondas de eficiência na gestão das empresas e nas engenharias de projeto, de produto, de produção, de marketing. Ou seja: a águia volta a voar.
Secos & Molhados
Produtividade
Também o conceito de produtividade deve ser reavaliado, segundo a NBER. A aferição quantitativa deve entregar o bastão ao inventário qualitativo. A produtividade do trabalho torna-se predominante sobre a produtividade do capital. Afinal, a revolução tecnológica, no conceito da excelência corporativa, é feita de 30% de máquina e 70% de pessoal.
Reacelerando
Em plena ressaca de meia década de prosperidade exuberante, as empresas americanas investiram, em 2001, em tecnologias da informação e/ou da comunicação, nada menos de 9,5% do PIB de quase US$ 10 trilhões. Empate técnico com a média anual de 1995/2000. Fonte: Dresdner Kleinwort Wassertein Research.
E os europeus?
A recarga americana só foi superada pela Inglaterra (9,7%) e pela Suécia (10,2%). O restante da Europa ficou na poeira chipada. Na rabeira, a Itália (6,2%).





