‘‘A credibilidade de um país é inversamente proporcional aos juros que os investidores internacionais lhe cobram.’’
Millôr Fernandes, jornalista e escritor
Juros neuróticos
De Sharon, Arafat, Duhalde e Chávez vive a remexida (ou não) na taxa básica de juros, a Selic. Os usineiros da política monetária fazem reunião hoje e amanhã com um olho no petróleo e outro na inflação. O primeiro joga gasolina na segunda, com remarcação de 9,39% em março e mais 10,08% aqui em abril. O repique maior no IPCA é agora.
A pancadaria intermitente no Oriente Médio deixa o mercado global do sujo óleo em sobressalto. Na Venezuela, membro fundador da Opep, o rasgo de padrão republiqueta embananada de Woody Allen tende a aumentar os embarques da viscosa mercadoria. Hugo Chávez, que está presidente de novo, precisa de ‘‘cash’’ urgente para tapar rombos, retomar obras, regovernar o barco sem leme e amainar a borrasca por ele mesmo ardilosamente provocada.
Ora, se o petróleo não vai explodir, se o Oriente Médio vai precisar de mais 4 mil anos para viver em paz, se a Argentina já implodiu, se Bin Laden desapareceu também da mídia, se a águia americana ensaia nova decolagem, se Roseana Sarney já desistiu, de Ronaldinho acaba de ressuscitar - que tal dar uma navalhada de meio ponto porcentual na Selic?
Afinal, o dólar está bem comportado, o crédito bancário continua curto e caro, ganhos de produtividade e choques de competitividade continuam enjaulando a inflação de demanda e 174 milhões de brasileiros (pelo pop-clock do IBGE) não podem continuar refém de uma panacéia ridícula: a da presunção tecnocrata de querer salvar a economia e a sociedade com lances teatrais da Selic à direita da vírgula.
Para variar, o mercado está dividido: metade aposta em redução de 18,50% para 18,25%. A outra metade está rachada: metade da metade acha que a coisa vai baixar para 18% e a outra metade da metade jura que o juro vai continuar como está.
Ora, antes de mexer ou não na Selic, que tal bater um papo com a Petrobrás? Ela tem gordura para queimar na estrutura dos preços e dos lucros. Quem está no osso é o tomador de crédito na base e na ponta do sistema produtivo.
Com o lembrete de José Maria de Jesus, analfabeto em teoria monetária: ‘‘O juro alto que estimula a poupança financeira é o mesmo que desencoraja o investimento (re)produtivo. Simplesmente porque o juro triplicado pelo risco amoitado no ‘‘spread’’ bancário é o mesmo que bloqueia o consumo, a produção, o emprego, o salário e o projeto empresarial.
E ainda: dois terços do IPCA 2001/2002 resultam de preços administrados pelo próprio governo e não de surtos de inflação de demanda . E desde quando combater a inflação é encarecer o custo financeiro de quem produz e vende?
Secos & Molhados
No desvio - O professor Delfim Netto, que já foi ministro e está deputado, lembra que a intermediação financeira ganha rios de dinheiro no financiamento da dívida pública contratada pela cobertura do déficit público - expediente que embrutece os juros para o setor privado.
Espelho - O certo e o triste é que países ricos, pobres e remediados, igualmente deficitários, se contentam de há muito com juros civilizados. A taxa real básica que o diga. Ela é hoje de 12,9% no Brasil contra 2,5% no Chile, 4,5% no México, 5,2% na China, 5,1% na Índia, 2,0% na Zona do Euro ou 0,1% no Japão . Com taxas negativas de 0,2% na Coréia e de 0,4% nos Estados Unidos.
Em resumo - Há um desvio de rota na política monetária, tão ou mais patogênico que o da política tributária. Com a diferença: a reforma da segunda tem de passar pelo cadáver do Congresso Nacional; o ajuste da primeira depende só de meia dúzia de canetadas do Banco Central.
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]

mockup