‘‘Nenhum pássaro voa alto demais se ele voa com as próprias asas.’’ William Blake (1757-1827), poeta inglês
Carne magra de boi gordo e boi gordo de capim sem porteira.
É assim que alguns técnicos brasileiros e estrangeiros identificam a proteína vermelha vencedora deste século 21. O boi gordo de ração europeu ou americano, o da carne gorda marmorizada, não terá como aguentar o tranco de tamanha competição dietético-econômica.
Eis o cenário do Brasil 2030, dono do mercado mundial da carne bovina, sacada de rebanhos dotados de blindagem sanitária no pasto para aceleração ou acabamento com ração em confinado. No caso brasileiro, linhagens européias e americanas robustecidas pelas raças zebuínas. As primeiras dão ganho de peso às segundas e as segundas garantem rusticidade às primeiras. Cenário pintado nesta coluna em 6/4/2002, sob o título Picanha global.
Eis que o professor Dante Pazzanese Lanna, da Esalq/USP, de Piracicaba, mete a faca afiada no debate e não deixa por menos: ‘‘A proteína vermelha não caminha para a hegemonia global do boi de capim. Muito do que se fala sobre carne magra de boi gordo é mito. A propalada tendência do consumo final para a carne magra é outra perspectiva extremamente duvidosa.’’
O professor recomenda uma espiada no futuro da carne bovina pelas lentes de Chris Delgado em seu clássico Livestock to 2020 - The Next Food Revolution (www.ifpri.cgiar.org).
Informa Dante Pazzanese Lanna que nas 72 ‘‘alianças mercadológicas’’ (beef alliances) dos Estados Unidos, bem ao contrário, há novas exigências de níveis ainda mais elevados de gordura do que os até aqui praticados, em média, pelo mercado. Aqui no Brasil, nossas ‘‘alianças mercadológicas’’ igualmente exigem teor de gordura bem acima dos níveis atuais (que são realmente baixos).
E mais: a ‘‘Certified Angus Beef’’, aliança de maior sucesso, impõe que os bovinos sejam pelo menos ‘‘medium choice’’ da classificação americana. Ou seja: a gordura entremeada tem de ser maior que 5% no meio do contrafilé, garantia de carne macia, saborosa e suculenta.
Dante Pazzanese Lanna lembra ainda que a boiada americana resvala cada vez mais para o Angus – cujo sêmen já é o mais vendido aqui no Brasil. Desde 2000, mais que o do nosso zebuíno Nelore.
Para o pesquisador da Esalq/USP, o problema é que americanos, argentinos e australianos, os ‘‘reis do gado’’ no século 20, usam e abusam de anabolizantes na engorda da boiada. Pior: os americanos misturam sebo bovino na ração para bovino – algo parecido com o gatilho protéico canibalesco da vaca louca européia. Uau!
Secos & Molhados
Simental
Será que o espalhamento da linhagem Angus nestes trópicos quentes e úmidos reprisará o sucesso do Simental, já com um século de carreira entre nós? O Simental aceita condições específicas de cada região do Brasil – desde que servido pelo tripé genética/genética/genética. Negócio para profissionais.
Evolução
A modernização da pecuária de corte entre nós acumula retornos preciosos em produtividade cada vez maior dos rebanhos: natalidade, sanidade, precocidade, adaptabilidade, rastreabilidade e sustentabilidade.
Ofensiva
A exportação sistemática de carne bovina mal começou e já se aproxima de US$ 1 bilhão por ano, a caminho de US$ 5 bilhões nesta década. Nos embarques, predominância de cortes transversais da carcaça, preferência mundial. O guloso mercado americano deve ser reaberto para nossa carne fresca ainda este ano.

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