Joelmir Beting
Este programa não ouve somente as vozes dos fazendeiros. Nós ouvimos também as vozes dos que querem ir adiante.
George W. Bush, presidente dos EUA
Jogo sujo da soja
Vem aí o litígio da soja nas fagulhas do conflito do aço. O Palácio do Planalto acaba de receber do Itamaraty o arrazoado técnico para a exposição de motivos do processo que o Brasil pretende ajuizar na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra os novos subsídios de Washington aos produtores americanos de soja.
Os estudos acionaram os Ministérios da Agricultura, da Fazenda e das Relações Exteriores. Cujos técnicos contaram com a escolta de entidades privadas ligadas ao comércio internacional do agronegócio. Entidades que contrataram para o meio-de-campo de nossa advocacia da defesa o escritório americano Powell, Goldstein, Frazer & Murphy. O mesmo que trabalhou para a Embraer na briga com a canadense Bombardier na rinha da OMC.
Contencioso de lado, o que há por trás da notícia é um fenômeno telúrico: o despertar do gigante verde-amarelo em seu esplêndido berço, já desafiando a maior potência agrícola do mundo e da História.
Deitado sobre 851 milhões de hectares de trópico quente e úmido, o Brasil tem condição de explorar pelo menos um quarto desse cheque visado emitido pela Natureza em nome de nossos filhos e netos.
Até aqui, exploramos menos de 10% do território nacional pela produção rural de mercado. Com capital, tecnologia e estatuto adequados, temos cerca de 90 milhões de hectares (uma França e meia) para incorporar à atual fronteira agrícola. É o que já estamos fazendo no macroeixo Noroeste e no cerradão central abaixo do arco amazônico.
O detalhe sempre esquecido em nossos estudos de potencial das conversas nos lares e nos bares: o hectare/ano no Brasil tem 12 meses de fotossíntese a carga plena e não meio ano solar ou menos.
Estamos intercalando lavouras de verão com culturas de inverno com um pé nas costas. Controles fitossanitários, avanços da biotecnologia de campo, conquistas agrostológicas, alternativas de exploração sustentável, modernização dos mercados e das cadeias de valor e promessas de grandes façanhas em logística - eis o que tira o sono da Casa Branca de susto.
A própria soja que o diga. Ecolojada entre nós nos anos 70 e monitorada até hoje pela Embrapa, a leguminosa made in Brasil já deu um chapéu de caubói na produtividade da soja americana. Resultado: de 1997 a 2001, a fatia da soja americana no mercado mundial deslizou de 73% para 53%. No mesmo período, a fatia da soja brasileira escalou de 11% para 26%. Sem contar carnes de exportação (crescente) encorpadas pela mesma soja.
Haja subsídios made in USA por baixo dos panos da OMC.
Secos & Molhados
Cerradão
Os cerrados já respondem por metade da soja, um terço do arroz, um quarto do milho e um quinto do café. A terra é ácida, mas a correção repousa no mesmo endereço: calcáreo e fosfato. No eixo do Centro-Oeste, a fronteira da soja ganha o chamariz do navio e do vagão. Que já dão carona ao porco e ao algodão.
Hidrovias
Com um século de atraso, produtores apelam para as hidrovias amazônicas. A soja de Blairo Maggi chega a Pequim a partir do Rio Madeira, com 910 km de navegabilidade ajustada. Barcaças de 3.200 toneladas são rastreadas por satélites e orientadas por sonares. O calado é de 5 metros. Na secular Hidrovia do Mississipi, calado de 3 metros, a carga não pode passar de 1.100 toneladas por barcaça.
Como é que é?
Entidade americana de produtores americanos e canadenses desembarcou na Confederação Nacional da Agricultura (CNA), em Brasília, é pespegou a obscena oferta: US$ 100 para cada hectare que o sojicultor brasileiro deixar de plantar...





