‘‘O futuro não pode ser mais incerto do que as incertezas do presente.’’ Walt Whitman (1819-1892), poeta americano
Os medos da Opep
Dizem que o petróleo não tem futuro. Ou mais precisamente: tem futuro opaco, reprise do filme queimado do carvão, relíquia energética do século 19. Por quê? Porque a pancadaria rosca sem-fim do Oriente Médio empurra a economia moderna para uma nova onda de substituição progressiva do petróleo na matriz energética do planeta sem juízo.
Ou, antes disso, ela returbina os programas de utilização racional dos derivados e, sobretudo, encorajam a extração competitiva do óleo dos restantes 28% das reservas mundiais – aquelas situadas fora do Oriente Médio. Yes, Brasil no meio.
Cabe lembrar que o duplo ‘‘oil shock’’ da Opep nos anos 70 acabou funcionando como um tiro pela culatra dos falcões da exportação. O mundo todo cuidou de aumentar a eficiência energética de máquinas, motores, usinas e veículos. A civilização energívora saiu à caça de fontes alternativas de energia primária. E grandes campos até então hibernados na terra e no mar passaram a ser devidamente explorados no Mar do Norte, no Golfo do México, no Mar da China, na ex-União Soviética, na África Ocidental, no Alasca gelado e aqui na Bacia de Campos – em águas profundas.
A fatia do Oriente Médio na oferta global caiu de quase metade para menos de um terço nos últimos 25 anos. Oferta e demanda andam empatadas na faixa de 75,5 milhões a 76,5 milhões de barris por dia. Os embarques da Opep mal passam de 28 milhões. A cotação nominal da viscosa mercadoria já oscilou do pico de até US$ 71 ao fosso de US$ 11. O cartel raivoso não conseguiu evitar tamanho ‘‘crash’’ na rampa dos anos 90.
O efeito Bin Laden não soma para a Opep. Bem ao contrário, subtrai seu poder de mercado. Ainda é cedo para sopesar o fenômeno, mas os projetos de substituição, de conservação e de diversificação da matriz energética já foram desengavetados em meio mundo – desde o ‘‘doomsday’’ de 11 de setembro.
Sabe-se que as guinadas da matriz energética têm pesado mais na formação dos preços ou tarifas do que as mudanças do aparato regulatório (com privatização de monopólios e liberação de mercados).
No Brasil, essa onda ainda não chegou. A Petrobrás perdeu o cartucho do monopólio, mas não o volante do mercado. Agora, com poder de ‘‘gatilho’’ e de aviso prévio sob o discutível alinhamento da estatal (voltada para dentro) aos sobressaltos do ‘‘spot’’ internacional.
A dependência do Brasil ao petróleo dos outros caiu de 4 x 1 para 1 x 4. E, na matriz energética brasileira, o petróleo não vai além de 4%.
Mas o País todo entra em sinistrose sadomasoquista quando o barril de petróleo vira barril de pólvora na Torre de Babel do Oriente Médio.
Secos & Molhados
Radical
Nos anos 70, a França tomou a decisão estratégica de banir o petróleo alheio de sua matriz energética. Apelou para o MWh mais caro de todos, o nuclear. Na oferta total de eletricidade, os reatores passaram de 24%, em 1980, para 76%, em 2000. O carvão segura 10% e as hidrelétricas os restantes 14%.
Encalhe
O futuro minado do petróleo não está na escassez ou no esgotamento. Está na rejeição ou no encalhe. As reservas mundiais foram recalculadas em 2,3 trilhões de barris (AIE). Mas a física e a química vão dar saltos pirotécnicos na direção de fontes limpas, seguras e baratas e de aproveitamentos compactos e sintéticos. Também para uso automotivo.
Ensaio
A esse respeito, a coluna recomenda o ensaio The Shocks of a World of Cheap Oil - The world’s problem is not a scarcity of oil but a glut, de Amy Myers Jaffe e Robert Manning (www.foreignaffairs.org/envoy).

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