Joelmir Beting
Os bancos não precisam exagerar nos juros e nos ganhos. Mas toda noite eu rezo para que meu banco seja lucrativo.
Chico Anísio, humorista
O mal menor
Para salvar bancos saudáveis, em maioria, de um contágio patogênico de bancos terminais, em minoria, governos de meio mundo não vacilam em promover a blindagem de todo o setor bancário a partir da remoção cirúrgica das batatas podres do saco.
A operação tem por objetivo evitar uma crise sistêmica de proporções inimagináveis para a economia e a sociedade. Ganham com ela os bancos sólidos (que absorvem os bancos gasosos, já então saneados). Ganham igualmente com ela os milhões de investidores, depositantes, correntistas e funcionários do sistema financeiro assim expurgado.
E os banqueiros desalojados, por administração incompetente, temerária ou fraudulenta? Eles não recebem pessoalmente um tostão de ajuda. Bem ao contrário, passam a responder civil e criminalmente pelos danos causados a terceiros.
Isso aconteceu, nos últimos anos, no Brasil, na Argentina, no Chile e nos Estados Unidos, entre outros. Com a diferença: lá fora, as operações de saneamento do setor bancário produziram um alívio geral. Aqui, um escândalo nacional. Vulgo Proer, sigla-palavrão do Programa de Estímulo à Reestruturação do Sistema Financeiro Nacional, acionado em 1995.
E tome a CPI do Proer, claro. Instalada em setembro do ano passado, por articulação dos partidos da oposição e por adesão de parlamentares esclarecidos da base governista, a CPI dos bancos chega a seu término hoje. Dia da votação do relatório final.
Conclusão dos trabalhos de investigação: longe de ser uma operação suspeita para favorecer banqueiros falidos, o Proer foi uma intervenção tópica, diligente e preventiva, que evitou o mal maior de uma crise bancária sistêmica, por efeito dominó, diz o relator Alberto Goldman. Toda a documentação levantada pela CPI já está sendo encaminhada ao Ministério Público.
Questão de fundo: qual foi o custo público de tal benefício coletivo? Algo parecido com a entrega dos anéis para salvar os dedos, a mão e o braço. O Tesouro Nacional financiou R$ 20,3 bilhões, dos quais R$ 5,8 bilhões provavelmente sem retorno. Em termos reais, perda de 0,8% do PIB.
Muito ou pouco? Operação idêntica fez evaporar do bolso dos contribuintes nada menos de 12,5% do PIB na Venezuela, de 13,2% na Argentina ou de 19,6% no Chile. Nos Estados Unidos, a mesma blindagem emplacou 5,1% do PIB. A dólar médio de 1998, a coisa consumiu, a fundo perdido, perto de US$ 440 bilhões. Argh!
Secos & Molhados
Repeteco
Na Argentina, arma-se a ferro e fogo um segundo Proer. Os bancos perderam com a desdolarização de lei e com a troca forçada de títulos públicos de 15% ao ano para 7% ao ano. Depositantes em dólar e/ou em peso sumiram do mapa nos últimos nove meses e o setor acaba de anunciar um corte de 20% do pessoal ocupado. Por enquanto.
Teimosia
No outro lado do mundo, o Japão segunda potência recusa refertilizar os bancos em apuros. Um Proer japonês poderia chegar a 16% do PIB de US$ 4,3 trilhões, segundo o Eurásia Group, agência classificadora de riscos. O setor concedeu créditos em demasia, tomando ativos imobiliários em garantia. Tais ativos micaram 45%, em média, desde 1997.
A salvo
Voltando ao Brasil, qual foi o prejuízo com a UTI bancária do Proer para os investidores, depositantes e correntistas? Incluídos os bancos estaduais, Banespa à frente? Alguém perdeu o sono por causa disso?





