‘‘Acreditaste porque me viste, Tomé. Bem-aventurados os que acreditaram sem terem me visto. Eis a verdade da fé.’’
Evangelho segundo São João (João 20, 19-31)
O credo cambial
Baciada de boas notícias, escalada de bons indicadores e enxurrada de capitais externos de empréstimo e de risco recolocam o dólar abaixo da cotação pré-apagão. Ou no rodapé de R$ 2,30. E pensar que havia doutos do mercado projetando, em setembro pós-destruição do WTC, algo parecido com até R$ 3,50 neste outono do Brasil. Com implosão da Argentina.
Eis a questão: Argentina pela bola sete e o real revalorizando-se com apetite de marinheiro desembarcado. Apreciação que igualmente ignora os arroubos recorrentes do petróleo e os conflitos intermitentes do Oriente Médio. Estaremos finalmente vacinados contra as viroses e as artroses alheias? Wall Street desconfia que sim.
Pelo sim, pelo não, o ajuste do dólar no declive, agora com transações à carga plena, reabre o debate esotérico: qual seria a taxa efetiva de câmbio para este segundo trimestre de 2002? Ou antes: haveria uma taxa piso abaixo da qual alguns ‘‘fundamentais’’ passariam do azul para o amarelo? Entre outros, o da espinhosa balança comercial?
Em dezembro, o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, brandiu o dólar a R$ 2,44 e arriscou o tripé: 1) há gordura no câmbio; 2) a depreciação atual não se sustenta; 3) quem viver até abril verá.
Claro, a autoridade monetária não ousaria sugerir uma taxa piso para a flutuação cambial. Até porque, como lembra Delfim Netto, ‘‘o dólar flutuante não perde a mania de flutuar’’.
E qual seria, no ventre da flutuação, a taxa piso para a balança comercial ainda convalescente? O secretário da Câmara de Comércio Exterior (Camex), Roberto Giannetti da Fonseca, aceita o repto e encaixa: ‘‘Até um piso de R$ 2,30, o exportador não tem razão para chorar nem o importador tem razão para exultar. Abaixo disso, sim. Liga-se a luz amarela para o primeiro e a luz verde para o segundo.’’
Diretor da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro vai mais fundo: o prato da exportação pode aguentar uma apreciação de até R$ 2,20 por dólar. Com a ressalva: a possibilidade dessa taxa está tecnicamente descartada. Até prova em contrário.
O problema, como lembra a jornalista Suely Caldas, é que 40 meses de flutuação ainda não foram suficientes para a reeducação estratégica da maioria dos exportadores e importadores. Ressabiados como nunca, os dois lados da balança deixam-se imobilizar pela ‘‘falta de previsibilidade’’ do câmbio e ainda não têm cintura para jogar com medianas trimestrais nas tomadas de decisão de comércio exterior.
Secos & Molhados
Bola de cristal
No mais, executivos das grandes empresas exportadoras, com ‘‘feeling’’ profissional do câmbio flutuante, estimam para a travessia de 2002 uma cotação pela banda de R$ 2,35 a R$ 2,45. O Orçamento Geral da União está recalibrado, desde dezembro, para R$ 2,40.
De lá para cá
Pelo flanco das importações, a queda da moeda americana anima a retomada de contatos para a ‘‘leva de compras’’ dos bens de consumo com desembarque no segundo semestre. Com o lembrete: exportadores e importadores podem fechar o contrato de câmbio meses antes do embarque ou desembarque da mercadoria.
Ajuste real
Tem-se no mercado a percepção de que o câmbio flutuante já estaria ‘‘ecolojado’’ pela economia brasileira para todos os fins e efeitos. As bolhas (‘‘overshooting’’) de 1999 e 2001 não teriam repeteco em 2002. Nem com a reta final das urnas presidenciais de 6 de outubro. Afinal, petistas não devoram criancinhas.

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