‘‘O regime de emagrecimento é a refinada técnica de prolongar a vida, tornando-a insuportável.’’
Woody Allen, cineasta americano
Picanha global
A carne bovina do século 21, vulgo proteína vermelha, terá pelo menos dois terços da oferta global rigorosamente made in Brazil, escreve o geneticista francês Dominique Buzzard. A hegemonia brasileira, segundo ele, estará consagrada a partir de 2030.
Essa aposta tem embasamento técnico. Em mais uma década, se tanto, o boi de capim estará deslocando no berro, nos principais mercados mundiais, o boi de ração. Este não mais conseguirá resistir ao custo e à qualidade daquele.
Por uma simples e boa razão: enquanto a rica mistura protéica a ração animal tende a ser transferida diretamente para consumo humano – a boiada brasileira estará nutrida por pastagens consorciadas de gramíneas e leguminosas no vasto território destes trópicos úmidos, com seus 12 meses corridos de fotossíntese garantida e gratuita, no lembrete do pecuarista Gilberto Adrien, de São Manuel (SP).
A ração terá futuro nas carnes brancas, com invejável coeficiente de conversão de nutrientes em peso animal. Um frango moderno já é capaz de transformar menos de 2 quilos de ração em 1 quilo do próprio peso. Certo, carne com sabor de isopor. O boi de corte da melhor estirpe européia exige 17 quilos de ração para cada quilo de ganho de peso. Autêntico desperdício da cadeia protéica.
O problema da pecuária tropical extensiva, a céu aberto e a pragas e doenças idem, residia na inviabilidade da blindagem sanitária do rebanho. Algo que desanimava o melhoramento genético da espécie. Com o advento da bioquímica de ponta, a custos baixos, deu-se nos últimos 30 anos a sonhada proteção fitossanitária dos plantéis brasileiros tocados em bases empresariais.
Sim, ainda pagamos tributos a zoonoses diversas, em especial a brucelose. Mas já escapulimos das garras da febre aftosa em pelo menos dois terços do rebanho brasileiro de 174 milhões de cabeças, no último censo do Fórum Nacional Permanente de Pecuária de Corte.
O detalhe: o ‘‘pop-clock’’ do IBGE aponta aqui para abril a existência de exatos 174 milhões de habitantes a bordo do Brasil. Ou seja: temos hoje exatamente um boi para cada habitante. Ué! Cadê o meu? Sem brincadeira: ainda temos gente que nunca viu bife num Brasil que ainda tem boi que nunca viu gente.
Falta dizer que o pulo do boi nestes trópicos úmidos está na cruza monitorada já secular de raças zebuínas ou indianas com raças européias. Caso único no mundo, diria hoje o saudoso Santo Lunardelli, ‘‘pai’’ do Nelore pele rosa. As zebuínas entram com a rusticidade e as européias com o ganho de peso. Do que resulta um animal de ficção científica: boi gordo com carne magra, cevado no pasto e com aceleração em confinado. Imbatível.
Secos & Molhados
Faca vs. fogo
Carne magra de boi gordo? Yes. Nosso gado de cruza, hoje multiplicado por um crescente mercado de embriões e prenhezes, tem a gordura separada da carne. Gordura tirada na faca. O gado europeu genuíno tem a gordura estriada ou marmorizada na carne. Só pode ser tirada no fogo.
Do futuro
No mundo dos nossos filhos e netos, a carne magra de boi gordo made in Brazil será a rainha da proteína vermelha. Até mesmo por receita médica. Hoje, na Europa da vaca louca, se alguém cacarejar boi de capim no lugar de boi de ração, ficará dono do mercado de boca em boca num piscar de olhos. Afinal, foi a ração que enlouqueceu a vaca.
Produtividade
Criadores modernos, com aplicação continuada de capital em genética e tecnologia, estão desfilando índices de produtividade dignos dos melhores currais europeus ou americanos. Presidente da Nestlé, Ivan Zurita, tem esse mapa da mina particular em Araras (SP). De matriz Simental.

mockup