Joelmir Beting
Para os governos e as empresas, o petróleo não é lucro; é poder. Henry Kissinger, consultor político
Barris, fuzis & cia.
Capricho da natureza: 71% das reservas mundiais de petróleo comprovadas repousam sob os desertos do Oriente Médio. Onde, em se furando, dá. Em bloco, incluído o Iraque a escanteio, a Opep responde por 42% da oferta global da ilustre mercadoria. E dos 11 países membros do cartel dos exportadores, 10 fazem parte do planeta islâmico. Exceto a Venezuela.
Eis a alquimia do conflito amoitado em cada barril de petróleo, convertido em barril de pólvora. Nem é preciso colocar Israel na roda.
Não raro, o Irã briga com o Iraque, que na trégua do Golfo Pérsico prefere invadir o Kuwait. Este sob o guarda-chuva da Arábia Saudita.
Essa Torre de Babel encharcada de óleo bruto vive em guerra tribal desde o quarto milênio antes de Cristo. Com o desembarque do Estado de Israel no pedaço, a partir de 1948, tempo da arrancada do mercado de massa para os automóveis energívoros, temos que a paz no Oriente Médio leva jeito de ser selada ali por volta do quarto milênio depois de Cristo. Digamos, em abril do ano 4004.
Até lá, temos de conviver com uma boa e uma má notícia. A má notícia: o mercado spot do petróleo tipo Brent prosseguirá em regime de sobressalto político nos dias ímpares e de tacadas especulativas nos dias pares. A boa notícia: de picuá cada vez mais cheio, o restante do mundo acabará substituindo o petróleo por combustíveis renováveis, limpos, condensados, seguros. Em mais quatro décadas, se tanto.
Ou antes disso. Meio mundo igualmente prenhe de óleo cuidará de penetrar no vácuo da Opep. Repeteco ampliado do movimento de conservação e de substituição acionado pelo duplo oil shock de 1973/75 e 1979/81. Na conservação: uma unidade de petróleo realiza hoje 1,3 unidade de produto (base 1x1 em 1973). Na substituição, a fatia do petróleo na matriz energética mundial baixou a crista de 44%, em 1970, para 32%, em 2000. E a participação da Opep no suprimento total despencou de 73% para 42%, desde 1975.
Eis por que o preço real do petróleo opepiano se manteve em declínio por toda a travessia do período 1983/1999. O barril do Brent fechou o longo ciclo no piso nominal de US$ 10. Algo parecido, em 1999, a US$ 6,50, a dólar de 1983.
Em se considerando o custo médio de US$ 3,20 na boca do poço lá no Oriente Médio, o barril a US$ 20 no spot de Roterdã está na justa medida para quem produz e para quem consome. A US$ 27, não se sustenta. Acima de US$ 30, é suicídio estratégico: o mundo todo parte para uma nova rodada de conservação e de substituição. Incluídas as fontes inesgotáveis da cana, do sol e do vento.
Secos & Molhados
Carambola
Nem bem o barril escalou mais 20% lá fora, em quatro semanas, e a Petrobrás já estima repasse de 10% para o portão de suas refinarias. Será que o Brasil ainda importa metade do petróleo que consome? E se o mercado ciclotímico do sujo óleo recuar 10% em uma semana? A Petrobrás rebaixaria 5% no ato?
Dois pesos
Eis a questão de fundo para o novo mercado brasileiro dos derivados em liberdade: se a alta lá fora produz alta imediata aqui dentro, uma baixa no mundo provocaria uma baixa tempestiva também no Brasil? Se estamos alinhados para cima, estaremos alinhados igualmente para baixo?
E os juros?
Esse novo arremedo de sinistrose importada já estaria contratando um repique do IPCA até aqui em viés de baixa. E isso justificaria a reversão da queda dos juros. Ou seja: a cada granada no quintal de Arafat, sobe a prestação do fogão a gás (além do gás) no varejo de Araras. Contágio infame.





