‘‘Sim, não tenhamos pressa. Mas não percamos tempo.’’
José Saramago, escritor português


Governo importado
No Brasil, o senador José Sarney defende a importação de auditores estrangeiros para patrulhar a lisura das eleições. Na Argentina, um cidadão em cada dois aceita a importação de assessores estrangeiros para elaborar e monitorar decisões. Para metade da população fraudada, só um choque de competência de fora para dentro teria alguma chance de acender alguma luz no fim do túnel. Se é que ainda haveria túnel.
A pesquisa do Ibope revela que 51% dos argentinos estão literalmente desencantados com a democracia representativa teorizada por Montesquieu. Como o caudilhismo peronista serviu apenas para afundar o país no autoritarismo político e no obsoletismo econômico, os argentinos deram de suspirar por algo mais que a moeda importada (o dólar) – também por um governo importado. Sem o dedo e sem o anel do FMI, milongueiro maior.
Única certeza, por enquanto: não há saída indolor para desatinos de meio século. Em 1950, a Argentina respondia por exatos 50% do PIB da América Latina. Em 2000, por 24%. Para este ano, o (des)governo reza por uma recessão de apenas 4,5%, a mesma do ano passado. Os empresários apostam em ‘‘crash’’ de até 14,5%. O desemprego aberto bateria no Everest de 30%.
E o que dizer da hiperinflação, terror do final da década de 80?
Março deve ter fechado com IPC ao redor de 16%. Em diversas transações, o peso passa a ser rejeitado feito cão danado. Como se viu nos surtos de hiperinflação da Alemanha (1923) e da Hungria (1948), a derrocada começa exatamente pelo abandono da moeda nacional.
Para economistas argentinólogos, a hiperinflação seria transitória e catequética. Ela assentaria a base política para a (re)dolarização terminal da Argentina. A coisa partiria do remonte da paridade fixa, mas na cota de 1 dólar por 3 pesos. Ou por 4 pesos, se a decisão ficar no aguardo chove-não-molha de uma nova blindagem do FMI.
Pesquisas de opinião a partir dos primeiros solavancos da flutuação indicam que dois terços dos argentinos estão com o dólar e não abrem. Eles rezam por uma redolarização radical - com o abandono solene da moeda nacional. Ruim com o dólar, pior sem ele, apontaria um balanço da flutuação cambial no primeiro trimestre.
Até prova em contrário, a Argentina não tem como renegociar a parcela da dívida externa já em moratória, não tem como honrar a rolagem da dívida interna já reestruturada, não tem como escapulir do déficit fiscal rosca sem-fim, não tem como desligar a bomba-relógio da hiperinflação, não tem como reverter a erosão da governabilidade...


Secos & Molhados

Sin-plata
A proposta da (re)dolarização formal equivale à idéia de colocar o sininho no pescoço do gato. Quem se habilita? O governo Duhalde tem nada além de US$ 12 bilhões nas reservas do Banco Central. Não cobre sequer metade da dívida externa que teria de ser paga este ano (de um total de US$ 155 bilhões em fevereiro).
Onde está?
E os dólares estocados por empresas e famílias nos últimos 40 anos? Nos registros do Banco Central argentino, as contas privadas no Exterior totalizam US$ 106 bilhões. Sem contar um valor não sabido amoitado no caixa 2 cambial dentro e fora do país.
Remendão
O ministro Remes Lenicov, que ainda está prestigiado pelo presidente Duhalde, empina um balão-de-ensaio: confisco cambial de 20% nas exportações em geral. O expediente ligeirinho injetaria dólares nas reservas internacionais e aumentaria a oferta de bens no mercado interno, resfriando o radiador da inflação mensal de dois dígitos.

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