Joelmir Beting
Se governada, a globalização é oportunidade para todos. Desgovernada, a globalização é desigualdade para todos.
Carlos Fuentes, escritor mexicano
Cadê o túnel?
A burrocracia do FMI não consegue aprender com os próprios erros. Errou feio na debt crisis dos anos 80 (com 34 países em moratória nada soberana). Errou em cascata nas quebradeiras do México, da Ásia e da Rússia. E erra outra vez no colapso da Argentina.
Como se faz a coisa certa? Em cada cabeça, uma receita. Como se faz a coisa errada? Basta executar ao pé da letra sem verba o que ordena a cartilha dogmática do FMI. Com edições revistas e ampliadas pela voz do dono, o Tesouro americano.
A nova cartilha made in Casa Branca de susto manda que não mais se deve colocar dinheiro bom sobre dinheiro ruim na presunçosa blindagem de países deficitários, bagunçados e encalacrados. O tal de moral hazard incrustado na gastança pública de sempre. Se prontamente assistido, o governo perdulário vai continuar na fuzarca fiscal. Até porque o investidor privado, nacional ou estrangeiro, sente que tem resseguro automático na compra de títulos desses emissores de altíssimo risco.
No trato do assunto, o colunista Celso Pinto convoca o economista-chefe do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o argentino Guillermo Calvo, que propõe a substituição do FMI por um Fundo para Mercados Emergentes (FME). Esse FME assumiria o risco do moral hazard do alto de uma vacinação de até US$ 50 bilhões.
Quem bancaria o FME? Repasses do próprio FMI? E por que não uma Taxa Tobin, do tipo CPMF global, extraída do capital volátil predador? Daria o dobro ou o triplo disso sobre movimentação diária global que transita online acima de US$ 1,5 trilhão. Afinal, como diz o próprio Guillermo Calvo, o risco país virou risco global e o risco global potencializa cada risco país. Ou seja: a Argentina, segundo ele, é vítima da globalização financeira desgovernada.
Discutida a portas fechadas na recente assembléia anual do BID, em Fortaleza, a proposta de Calvo contemplaria, no caso da Argentina, uma redolarização de transição para reverter os atuais estragos da abertura cambial: passagem da recessão sem inflação para a recessão com hiperinflação, vulgo stagflation.
Única certeza: o FMI teima em exigir acordos leoninos para ajustes nacionais economicamente inócuos e socialmente iníquos - com sobras para a desestabilização política do país supostamente assistido. A Argentina perdeu a conversibilidade, a modernidade, a competitividade, a credibilidade e a governabilidade. Sem luz no fim do túnel? Pior: cadê o túnel?
Secos & Molhados
Purgante 1 - São 10 os mandamentos que o FMI impõe à Argentina, resume o economista Paulo Nogueira Batista Jr., da FGV-SP. Primeiro bloco: 1) flutuação cambial a ferro e fogo; 2) arrocho monetário; 3) garrote orçamentáro; 4) choque fiscal nas Províncias; 5) demissão de servidores.
Purgante 2 - Segundo bloco: 6) resgate urgente de títulos provinciales; 7) saneamento e privatização dos bancos provinciales; 8) reestruturação do sistema bancário privado; 9) nova lei de falências com modelito americano; 10) renegociação da fatia da dívida externa em moratória. Dá para tomar uma Quilmes antes?
Purgante 3 - Ex-economista-chefe do Banco Mundial e Prêmio Nobel de Economia de 2001, o professor Joseph Stiglitz diz que o FMI morreu faz tempo e ainda não foi avisado. Exatamente o que escreveu no crash asiático o Nobel americano Milton Friedman. Para quem o FMI aplica venenos com bulas de remédios.
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