‘‘Ligar meu governo à implosão do peso é uma estupidez. Que o dólar vá a 9 pesos. O que isso tem a ver comigo?’’
Eduardo Duhalde, presidente da Argentina
Poço sem fundo
Quando a gente pensa que a Argentina já parou de piorar, ela consegue piorar ainda mais. O ajuste fiscal é frágil, o crédito bancário está na moita, os bancos tremem nos cofres, o cenário político vira fuzarca, o FMI sai de fininho, a tensão social alcança o limite da ruptura e o câmbio - ah! o câmbio! - morre de saudades da paridade fixa a ferro e fogo.
A nova desgarrada do dólar, que bateu nas traves dos 4 pesos sem medida, permanece acima de 3 em regime de flutuação sob intervenção. Ontem, o Banco Central conseguiu a adesão de 27 bancos privados e de meia centena de casas de câmbio para forçar uma baixa quase do mesmo calibre da alta recorde da véspera.
Na desmontagem da banda cambial brasileira, o real suportou e reverteu um ‘‘overshooting’’ de até 44% nos dois primeiros meses de flutuação. O peso sem massa conseguiu, em três meses, perder 74% até o pico de segunda-feira (1x3,90). Tamanho choque cambial, ainda sem reversão garantida, começa a romper a jaula da inflação anual de um dígito. Sem refertilizar a competitividade do ‘‘made in Argentina’’ dentro e fora de casa.
Para os argentinos sin-plata, a emenda da abertura cambial tem sido pior que o soneto da paridade fixa. Os agentes econômicos partem para a dolarização informal de preços e de contratos. Os pacientes do processo ficam com o mico que já foi peso.
O sociólogo americano Albert Fishlow, brazilianista de carreira e argentinólogo de ocasião, disse-me há duas semanas que só existe uma saída (nada honrosa) para a enrascada argentina: a redolarização por decreto, com o abandono sumário da moeda nacional. Que tal? No mínimo, os argentinos estariam antecipando de uma década, segundo ele, a moeda única da futura Alca, ali por volta de 2012 - o dólar americano.
Os economistas estão divididos. Metade prefere um ajuste cambial de mercado, tipo Brasil, nas marolas de uma reestruturação draconiana do Estado argentino. Claro, sob uma nova blindagem financeira do FMI, o milongueiro maior. Para o ministro Pedro Malan, a corrida é contra o relógio, sim. Mas ressalva: ‘‘O Fundo não pode nem deve exigir um ajuste fiscal assim da noite para o dia. Se essa é a condicionante para um novo acordo, não haverá acordo.’’
Sem mistério. Nesta altura do calendário da crise, um garrote orçamentário seria politicamente intolerável, sobre ser tecnicamente inexequível.
Secos & Molhados
- A recarga da sinistrose platina tem pelo menos o mérito de testar o sistema imunológico da economia verde-amarela. Parece que o contágio acabou. A tal ponto que o risco Brasil embutido nos juros que pagamos lá fora caiu, desde a semana passada, de 9 para 6 pontos porcentuais acima dos juros pagos pelo Tesouro americano.
- Em 2001, a Argentina teve quatro presidentes, cinco ministros da Economia e sete planos de salvação nacional. Ela foi a grande ausente na Noite do Oscar. Era a favorita na categoria de Efeitos Especiais.
- Comentarista da festa hollywoodiana do Oscar, Arnaldo Jabor desalienou à direita e à esquerda e concluiu: ‘‘Afinal, não passo de um invejoso cineasta comuna dos anos 60, deste pobre país importador de imagens e exportador de laranjas e metais sobretaxados nos Estados Unidos.’’
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