Joelmir Beting
A revolução digital sugere uma solução simples (computador) para um problema historicamente muito complexo (pobreza).
Robert Samuelson, jornalista americano
Exclusão ou inclusão?
Copo meio vazio ou copo meio cheio? Para 48% dos internautas capturados por uma pesquisa da Online Learning, a atual revolução tecnológica de quatro patas (telecom/datacom/pontocom/midiacom) desencadeia clamoroso processo de exclusão social, alargando o antigo abismo entre ricos e pobres - pessoas, famílias e nações.
Exclusão digital, eis a questão: o futuro é de quem tem um computador e sabe o que fazer com ele. A chamada nova economia faz escandalosa amplificação do processo: fortalece profissionais, empresas e países já opulentos na mesma medida em que deleta dos mercados e das profissões os atores ainda não chipados.
Certo? Nem tanto. Para 52% dos navegantes da Web, estamos na crista da onda do maior movimento de inclusão social da História. A penetração das novas tecnologias se faz em ritmo de uma Ferrari em sexta marcha. A telefonia precisou de sete décadas para cobrir metade da Humanidade. O rádio contentou-se com meio século, a televisão não passou de 28 anos e a Internet ensaia ficar abaixo de 10 anos - desde 1996.
Parida no século 19, a telefonia virou neste século 21 uma cesta básica de comunicação, de trabalho e de segurança. Ocorre que os pobres permanecem excluídos dela desde o invento de Graham Bell. Ninguém se lembrou de fazer discurso, passeata e manifesto contra a exclusão telefônica made in Telebrás. Até 1996, em certas áreas de São Paulo, se pagava no paralelo até US$ 10 mil por uma linha fixa. Aqui e na Rússia. Na Alemanha Oriental, antes da queda do Muro, telefone dava cadeia. Tão subversivo nos lares quanto a máquina de escrever Olímpia. O sistema tinha medo até de papel-carbono.
Hoje, o celular pré-pago já está no barraco de quase metade de população favelada. Onde a taxa de inclusão da TV transita perto de 92%, igualando a taxa de penetração do fogão a gás engarrafado.
O reator do processo de inclusão digital está no tripé da própria revolução tecnológica: velocidade/conectividade/intangibilidade. Um tripé que chega até mesmo a desafiar os fundamentos do Universo: o do tempo, o do espaço e o da massa. Tanto mais porque vem aí a rede mundial com espectro de largura quase infinita. Do que vai resultar, até 2010, se tanto, uma interatividade global cada vez mais potente, mais capaz, mais veloz, mais definida, mais segura e mais barata. Eis o DNA da inclusão que se aproxima.
Já imaginaram um micro de uso pedagógico, conectado na Web, no colo de uma criança hoje sem escola, sem passagem e sem destino? Esse micro, em 2005, vai custar menos de US$ 100.
Secos & Molhados
Atalho - Para Peter Drucker, 92 anos, o micro devidamente programado vai funcionar, não como instrumento de ensino, mas como ferramenta de aprendizado. Ele tende a produzir em menos de uma década a mesma revolução educacional desencadeada pela cartilha impressa na Europa dos séculos 15 e 16.
Inclusão - O colunista Robert Samuelson, do The Washington Post, acaba de ouvir uma penca de estudiosos americanos e deságua no mesmo delta: graças à estrepitosa transformação tecnológica dos últimos 15 anos, ocorrem sem alarde grandes avanços na capacitação de recursos humanos para o trabalho e para a vida.
Virada - No mesmo ensaio, publicado ontem pelo Estado, relata a difusão digital no rodapé da sociedade americana e aponta pesquisas recentes dando conta de que a Idade Digital acaba de furar a própria bolha da desigualdade salarial. Também para a turma do porão, o trabalho já virou estudo e o estudo já virou trabalho.
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]





