‘‘O último aperto em qualquer parafuso pode estragar tudo. Mas, sem esse último aperto, o parafuso pode se soltar.’’
Arthur Bloch, em A Lei de Murphy no Século 21 (Record)
Mudar por mudar?
A nova caderneta de poupança ensaia trocar o seis pelo meia dúzia. Preferência nacional, a caderneta desfila sinais de fadiga do material. Mas, se é para mudar, que se mude para melhor. Seja na ponta do poupador do recurso, seja na base do receptor do capital. Em especial, o programa habitacional.
O modelo em gestação é do tipo assopra e morde. Por sobre a minguante TR (de 2,29% no ano passado), ele promete juro anual maior – de 6% para 7,5%. Mas convoca o leão para tirar o naco de um quinto do ganho bruto a título de Imposto de Renda. Se a cobrança for mensal e alcançar também o osso da TR, aí a rentabilidade da nova ficará abaixo da rentabilidade da velha.
Simulação de bancos privados revela que, por tal fórmula, a nova teria rendido 8,11% em 2001. A velha rendeu 8,59%. Fundos DI pagaram, limpos de IR e CPMF, a média de 12,19%. Quer dizer: até versão final em contrário, a cunha fiscal introduzida na nova caderneta tende a cometer a façanha de levar o sistema a pagar menos ao poupador e cobrar mais do mutuário. Para variar.
Gestora de uma poupança coletiva de R$ 121 bilhões, a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) torce o nariz para o balão-de-ensaio das mudanças anunciadas. Presidente da entidade, Décio Tenerello diz que o caso de amor do brasileiro com a caderneta tem a ver menos com a rentabilidade e mais com a segurança, a liquidez e a simplicidade da aplicação. A maioria dos poupadores não gostaria de conviver com um complicador do tamanho do Imposto de Renda.
Ressalte-se que a usinagem da nova caderneta, iniciativa do Banco Central, tem dado carona a reparos e sugestões de entidades do setor financeiro e do mercado imobiliário. Uma das propostas da área privada substitui na prestação da casa própria a fórmula TR mais juros de 12% ao ano por IPCA mais juros de mercado. Com o refresco, parte dos juros pagos seria deduzida na declaração anual do IRPF.
Os bancos cuidam de puxar a sardinha para as respectivas brasas. Propõem o fim do direcionamento ou da vinculação dos ativos da caderneta ao programa habitacional (vinculação em boa parte já descaracterizada).
Para os técnicos do Banco Central, a exposição de motivos para a nova caderneta é linear: 1) flexibilizar as regras do sistema de poupança e empréstimo; 2) estimular a migração voluntária de capitais para o novo Sistema Financeiro Imobiliário (SFI), presumido sucessor do desconjuntado Sistema Financeiro da Habitação (SFH).
Secos & Molhados
Saudade
Pelo sim, pelo não, o poupador José Maria de Jesus, dono da banca de água-de-coco em Ipanema, diz que está com a caderneta e não abre. Mas deplora entre dois suspiros de saudade: ‘‘Hoje, a caderneta rende meio por cento ao mês. No último mês do governo Sarney, rendeu 87,2%. Sim, no mês.’’
Sem fundo
Ressabiados com as mudanças na caderneta, empresários da construção queixam-se de desvios de rota do FGTS, segundo maior lastro do programa habitacional. Eles questionam a transfusão incentivada de recursos do Fundo para a capitalização das gigantes Petrobrás e Vale do Rio Doce.
Boa pedida
Consuelo Amorim, presidente da Associação Brasileira das Administradoras de Consórcios (Abac), prefere aplaudir a recente abertura do FGTS para a cobertura de lances em consórcios da casa própria.

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