‘‘A inteligência é como ferro: por falta de uso, enferruja.’’ EugSne Ionesco (1912-1994), escritor romeno
Miopia dos juros
A caneta da autoridade monetária, que calibra taxas de juros e monitora fluxos de crédito, ensaia optar, nesta quarta-feira, assim com aviso prévio, pela segunda redução fatiada no ano da taxa básica do sistema. Ela foi rebaixada em fevereiro, piedosamente, de 19% para 18,75%.
Nos Estados Unidos, a reversão dos juros, do declive para o aclive, neste segundo trimestre, responde ao dogma monetarista de segurar a inflação de demanda pelos chifres. É que a megaeconomia do Tio Sam passa a emitir sinais concretos de retomada, a partir do diagnóstico do tipo ‘‘o pior já passou’’. Hora certa, portanto, de se passar na oferta de crédito e no custo dele do ‘‘go’’ estimulante para o ‘‘stop’’ cauteloso. Ou medroso.
Como é sabido, a maioria dos economistas e burocratas não tem a menor consideração pelas forças estabilizadoras (dos preços) usinadas pelo tripé concorrência/modernização/produtividade. Eles juram, por todos os juros, que o controle da inflação (de demanda) ainda se dá, exclusivamente, pelos flaps da taxa básica de juros, com mexidas à direita da vírgula.
Nenhuma manifestação de apreço pela contribuição decisiva de inventores, engenheiros, empreendedores, executivos, trabalhadores, parceiros, fornecedores, varejistas, consumidores. Quem realmente segura a inflação de demanda pela cauda, desde meados da década passada, são empresas e mercados na realização de produtos e serviços cada vez melhores a custos e preços menores.
A coisa chegou a tal ponto que o próprio Alan Creenspan anda coçando a cabeça em tertúlias acadêmicas: que tal a gente passar a questionar as velhas metodologias de cálculo da evolução do produto e da variação do preço? Será que estamos incorporando com precisão e justiça os ganhos intangíveis dos choques recentes de competitividade e de produtividade na economia americana?
Alguns acadêmicos já levantaram e atiraram nessa lebre. Um grupo de Berkeley/ Stanford concluiu, empiricamente, em 1997, que a inflação real seria menor que a oficial e que o PIB real seria maior que o oficial... Que tal? Essa cruza significa que a compatibilidade de crescimento econômico com estabilidade monetária tem sido mais robusta do que reza a doutrina estabelecida.
Tome-se um televisor, um relógio ou um serviço telefônico. São melhores e mais baratos em 2002 do que em 1995. Mas esses avanços em qualidade não têm lugar nas dogmáticas econometrias do PIB e do IPC. Um produto melhor por um valor menor, bem ao contrário, subtrai o PIB sem rebaixar o IPC. Algo parecido ocorre em meio mundo, Brasil no meio.
Secos & Molhados
Refresco
Na avaliação de executivos financeiros, a taxa básica do Brasil varonil comporta corte de meio ponto em março e outro tanto em abril - quando ela poderia estabilizar-se em 17,75% por tempo indeterminado. Ou até a absorção dos efeitos inflacionários da reindexação anual de ‘‘preços administrados’’ atrelada ao IGPM, no trimestre maio/julho.
Complicador
O problema é que a Selic deve ser balanceada não só pelo corpo a corpo das metas inflacionárias. Também pela queda-de-braço com oscilações cambiais e com solavancos fiscais. Assim sendo, quem não desfila crachá de membro do Copom acaba formulando reparos de padrão engenheiro de obras feitas.
Nipônico
Ou como suspira Milton Friedman, arquiteto do monetarismo: ‘‘A política monetária imita jardim japonês: aparente simplicidade escondendo enorme complexidade.’’

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