‘‘A vida econômica é um processo de ajustes constantes a coisas complexas que nunca ocorreram antes.’’
John Kenneth Galbraith, economista canadense


Garimpando a Vale
A venda pulverizada de 31,5% das ações do Vale do Rio Doce, as do lote pertencente ao Tesouro Nacional, até sexta-feira, 15, reprisa a operação vitoriosa com a oferta pública de ações do governo na Petrobrás, em agosto de 2000. A diferença é que a União mantém a Petrobrás sob controle estatal, enquanto a Vale do Rio Doce já é de domínio privado.
A diferença está ainda no desconto oferecido a compradores das ações quando financiados pelas respectivas reservas do FGTS. Na Petrobrás, desconto de 20% na cotação média das propostas do mercado (‘‘bookbuilding’’). Na Vale, desconto de 5%. O valor para aplicação de cada investidor vai de R$ 300 a R$ 100 mil.
Para quem não comprou Petrobrás com FGTS, dá para aplicar até 50% do saldo atualizado do Fundo na compra da Vale, respeitado o teto de R$ 100 mil. Para quem já aplicou na Petrobrás e não pretende sair dela, mas deseja fazer pé-de-meia também com a Vale, aí a coisa é muito simples: o valor disponível para essa nova operação pode ser calculado pela fórmula (SV+ SQFMP)/2-SQFMP. Boiou? Procure na CEF a cartilha do PMP-FGTS-CVRD.
Para essa segunda manifestação de monta do capitalismo popular no Brasil (participação das durezas do trabalho nas alegrias do capital), a matemática financeira do mercado de ações é de um surrealismo atroz. Sabe como se mede o valor de uma ação em oferta no mercado – para se saber se vale ou não vale a pena aplicar na Vale? Basta utilizar o indicador EV/Ebitda. Certo?
O negócio não é para diletantes. Mas qualquer negócio acaba sendo vantajoso em relação ao histórico e vergonhoso estelionato financeiro aplicado nas contas e nas costas da classe trabalhadora, detentora do FGTS. Para um trabalhador que paga hoje até 161% ao ano no rotativo do cartão de crédito, o respectivo saldo no ‘‘curralito’’ do FGTS rende TR mais 3% ao ano...
Pelo sim, pelo não, 241 mil trabalhadores movidos a FGTS toparam a parada e subscreveram R$ 1,6 bilhão da oferta total da Petrobrás. Neste caso da Vale, a apetência tem sido do mesmo calibre. Maior mineradora de ferro do planeta, a Vale é movida a dólares. E, como se diz no mercado, a posse de ações de exportadoras compulsivas funciona como ‘‘hedge’’ (proteção) cambial.
Empresa moderna e rentável, a Vale costuma pagar bons dividendos anuais. De 6% em 2000 e de 8% em 2001. Para este ano, a corretora Socopa aposta em valorização em bolsa de até 15% na Vale. A Unibanco Research não deixa por menos de 40% na Petrobrás.


Secos & Molhados

Brilhante
- A euforia dos ‘‘fundistas’’ com a Petrobrás escora-se num par de valores. De agosto de 2000 a fevereiro de 2002, o FGTS rendeu o acumulado pífio de 7,8%. No mesmo período, a carteira Petrobrás/FGTS encaixou nada menos de 56%.
Controle
- Quem são os ‘‘donos’’ do capital controlador da Vale do Rio Doce? Pela ordem, o Bradesco e um bloco de fundos de pensão liderado pela Previ (dos funcionários do Banco do Brasil).
Escalada
- Há oito meses no comando da Vale, Roger Agnelli diz que a estratégia da empresa é transparente: 1) ampliar a produção de ferro, bauxita, cobre e ouro, dentro e fora do Brasil; 2) desfazer-se de posições em siderúrgicas brasileiras, assim como já se afastou dos ramos de papel e celulose; 3) reinvestir pesado em trens e navios e entrar em parcerias com operadoras globais de caminhões e aviões; 4) alongar o braço da energia.

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