‘‘A melhor defesa comercial dos Estados Unidos não está mais na adoção de cotas ou tarifas e, sim, na desvalorização do dólar.’’
Win Duisenberg, presidente do Banco Central Europeu


Cortina de aço
‘‘Dentre os países prejudicados, o Brasil talvez tenha sido o menos atingido pelo aço americano; o que não quer dizer que não tenha sido prejudicado.’’ É assim que o diplomata José Alfredo Graça Lima resume o discurso brasileiro nesta recepção de dois dias do representante comercial dos Estados Unidos, Robert Zoellick.
Subsecretário-geral de Assuntos de Integração Econômica e de Comércio Exterior do Itamaraty, Graça Lima lembra que o ‘‘tratamento diferenciado e favorecido’’ (segundo Zoellick) concedido ao Brasil na retranca americana do aço vale por uma restrição mansa pelo lado da águia e por uma privação injusta pelo lado da siderurgia brasileira.
Nada contra Robert Zoellick. Cientista político e diplomata bissexto, ele é o principal ideólogo de Washington para os tratos casados da abertura comercial e da segurança nacional. Essa nova doutrina da diplomacia econômica ganhou relevância política pós-atentados terroristas de 11 de setembro.
Intelectual esnobe, Robert Zoellick tem quatro pedreiras a demolir no exercício do cargo: a dos congressistas, a dos empresários, a dos sindicalistas e a dos colegas de governo. Por uma simples e boa razão: ele veste a camisa engomada do livre comércio e não o contrário. Acabou voto vencido na tranca do aço.
Não por acaso, o chanceler brasileiro Celso Lafer, também ele um ‘‘schollar’’ brilhante, chama Zoellick de ‘‘parceiro’’ e de ‘‘interlocutor confiável’’ nas abrasivas pendências bilaterais de comércio. Só faltou dizer: ruim com Bush, pior sem Zoellick.
A verdade é que a blindagem do aço ‘‘made in USA’’ é menos uma iniciativa do governo Bush e mais uma exigência do Congresso (de maioria republicana). E, quando se trata de protecionismo comercial, tem-se igualmente o endosso de toda a bancada democrata. Ou como admite The Washington Post: a) os republicanos fazem o jogo dos empresários na defesa dos mercados; b) os democratas batem bola com os sindicatos na proteção dos empregos.
Robert Zoellick não tem como forçar a venda de fronteiras abertas a um Congresso que ainda não deu a palavra final sobre a concessão do ‘‘fast-track’’ TPA. Que bicho é esse? Espécie de via rápida ou carta branca ao presidente Bush para a celebração de acordos e tratados bilaterais e multilaterais de comércio. Entre outros, a costura da futura Alca.
A queda das torres de Wall Street engripou ainda mais a catequese de Zoellick por dentro do ‘‘stablishment’’. Ao defender nova ênfase no livre comércio como arma de combate ao terrorismo, ele literalmente xinga os protecionistas de antipatriotas. Argh! O patriotismo está no auge.


Secos & Molhados

Seção 201
- É bom não perder de vista a lógica da Seção 201 da legislação americana de comércio exterior. Ela permite a Washington defender ramos industriais distraídos contra ‘‘ataques limpos ou justos’’ de parceiros competitivos e atrevidos. Caso do aço: a tonelada americana custa US$ 180. A brasileira, US$ 130. Fogo, pois, na eficiência estrangeira.
De escape
- A Seção 201 funciona como cláusula de escape. Permite às empresas prazos razoáveis de recuperação. E, aos políticos, a aceitação de acordos liberais. Ao menor sinal de ‘‘invasão de importados honestos’’, políticos acalmam eleitores disparando a Seção 201.
Sem trauma
- Pela Seção 201, empresas abalroadas pela importação têm até 8 anos para a modernização e/ou para a desativação (caso dos eletroeletrônicos). Espécie de ‘‘retirada ordeira’’, sem quebradeira da noite para o dia. Foi a Seção 201 que salvou da invasão das motos japonesas, nos anos 80, a heráldica Harley-Davidson.

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