Joelmir Beting
A igualdade só virá não quando uma Einstein for reconhecida como um Einstein, mas quando uma idiota for promovida quanto um idiota.
Bella Abzug, advogada americana
Elas por elas
Na força nacional de trabalho, a participação feminina disponível no Brasil já é da ordem de 53% da população economicamente ativa. O problema é que 21% das mulheres que querem e podem trabalhar fora de casa estão desempregadas. Esse par de números vale para o eixo Rio-São Paulo-Minas, segundo institutos de pesquisas da região.
Na Grande São Paulo, que dribla o esvaziamento industrial com a musculação crescente da economia de serviços (com maior engajamento feminino), a taxa de desocupação praticamente iguala a média regional, com 20,8% segundo a Fundação Seade.
Na passagem do Dia Internacional da Mulher, a multimídia brasileira fartou-se, ontem, em descrever a condição da mulher brasileira na família, na escola, no trabalho, na política, na cultura, na comunidade. Para variar, o grifo predileto das pautas e das editorias foi cravado na antiga crônica da discriminação social que ronda o cotidiano da população feminina.
No mercado de trabalho, o mais visível, tem-se o desemprego maior e também o mais longo para as mulheres com experiência anterior de trabalho. O tempo médio de exclusão do mercado subiu para 24 meses, contra 14 meses dos homens. A desistência da busca de novo emprego, por desalento, é também maior entre as mulheres, segundo a pesquisa. A Mulher Brasileira nos Espaços Público e Privado, da Fundação Perseu Abramo.
A discriminação no mundo corporativo é ostensiva nas folhas de pagamento e nos planos de promoção. Na Grande São Paulo, o salário da mulher corresponde a 76,2% da remuneração do homem em função equivalente. No País, segundo o Censo 2000 do IBGE, a média está em 69,7%. Evoluiu. Em 1990, estava abaixo de 60%.
Eis que entra em cena um vasto estudo sobre a participação da mulher brasileira na atividade político-partidária. Trabalho de Lucia Avelar, pesquisadora da UnB, apresentado em livro de 202 páginas (Mulheres na Elite da Política Brasileira), co-edição da Unesp e da Konrad-Adenauer. Revela-se na obra que a inserção da mulher nas arenas políticas cresce a cada ano, mas ainda distante dos padrões das democracias ocidentais.
Na órbita do poder legislativo, a cota das mulheres é hoje de 11,6% nas câmaras municipais, de 10,5% nas assembléias estaduais e de 6,7% no Congresso Nacional. No Executivo, 317 prefeitas (5,7%) e uma única governadora a presidenciável Roseana Sarney. Nas diretivas nacionais dos partidos, palmas para o PT, com 28% das cadeiras ocupadas por mulheres. O PDT segura 21% e os demais partidos contentam-se com menos de 7%.
Secos & Molhados
Falta muito
Nas tabelas de Lucia Avelar, a presença da mulher brasileira na Câmara e no Senado coloca o Brasil em 84.º lugar no ranking global da União Interparlamentar, de Genebra. Nos 178 Parlamentos do mundo, a média é de 13% para deputadas e de 11% para senadoras. Na Escandinávia, acima de 40%.
Presidenciável?
A governadora Roseana Sarney (PFL-MA) simplifica seu momentoso contrapé político (sob devassa policial) a uma discriminação contra a mulher no rodapé do poder central. Estudiosa do assunto, a professora Lucia Avelar discorda.
Como é que é?
Em entrevista ao Valor, Lucia Avelar diz que, bem ao contrário, Roseana Sarney entrou no páreo da Presidência da República precisamente por ser mulher. Ou seja: o PFL pegou a nova onda européia, a de lançar mulheres para refertilizar partidos em baixa e retemperar caciques políticos em descrédito.





