‘‘Na análise da economia americana, fazemos muito sensacionalismo na alta e muito catastrofismo na baixa. Não é assim que ela funciona.’’ Paul Samuelson. Prêmio Nobel de Economia


O (re)pouso da águia
Afinal, houve ou não houve recessão americana na traumática travessia de 2001? Se a gente desprezar a furiosa discussão econométrica localizada à direita da vírgula do PIB gregoriano da águia estressada (0,1%, 0,5% ou 0,9%?), chega-se à descoberta tardia de que tudo não passou de uma desaceleração da megaeconomia até então em quinta marcha. Expansão anual de quase 5% para algo abaixo de 1%.
Vale aqui repassar o glossário do economês. Expansão é quando a economia cresce, ainda que de pífio 1% ao ano. Recessão é quando a economia engata a marcha à ré, ainda que de 0,5% ao ano. Estagnação é quando a economia trafega pela bitola do chamado crescimento zero. Truísmo de lado, estagnação não é recessão. Muito menos, depressão (recessão em overdose).
Desaceleração é crescer hoje menos do que ontem ou amanhã menos do que hoje – mas crescendo sempre. O que nada tem de dramático para um PIB americano da ordem de US$ 10 trilhões, a dólar médio do último trimestre de 2001. Um PIB de 1% a mais, no caso americano, significa um acréscimo anual de US$ 100 bilhões. Algo parecido com todo o PIB de Portugal. Que tal?
Entre os economistas americanos, sobrevive uma antiga discussão acadêmica em torno do que seria a métrica ideal de um ciclo de recessão. Metade entende que recessão é redução do produto nacional por pelo menos dois trimestres corridos. A outra metade prefere aguardar três meses.
Bingo para o segundo grupo. O chamado ‘‘livro bege’’ do Fed repassa a atribulada trajetória de 2000/2001 e chega a uma dupla conclusão: a) o estrepitoso ajuste, monitorado pelo stop and go monetário do próprio Fed, esteve próximo da estagnação, mas sem resvalar para a recessão; b) a reaceleração já começou.
O pico da aceleração da águia ocorreu no último trimestre de 1999, com a taxa anualizada do PIB enchendo a medida de 8,3%. De lá para cá, o pior desempenho ocorreu no terceiro trimestre do ano passado, por retração de 1,3%. No quarto trimestre, expansão de 1,4%. Para este primeiro trimestre de 2002, já se cochicha mais 1,8%.
Como o mundo não acabou pós 11 de setembro, o ‘‘senhor dos mercados’’ Alan Greenspan já admite para este ano um PIB gregoriano retemperado para 2,5%. O secretário do Tesouro, Paul O’Neill, não deixa por menos de 3,5%. Ou como relembrou Paul Samuelson, em outubro: ‘‘Os economistas adivinharam nove das duas últimas recessões nos Estados Unidos.’’


Secos & Molhados

Nas fábricas
- A recolocação de pedidos nas carteiras das fábricas cresceu também em janeiro (1,6%), terceira alta mensal desde novembro. Esse indicador do Departamento de Comércio tem o mesmo prestígio da porosa pesquisa do estado de espírito dos consumidores, apurado mensalmente pela Universidade de Michigan.
Nas lojas
- O desempenho do varejo, por onde trafegam dois terços do PIB americano, é acompanhado pelo Relatório Redbook. Esse ‘‘livro vermelho’’ informa que as vendas do comércio lojista, em fevereiro, ficaram 0,7% acima de janeiro. Ou 4,3% acima de fevereiro do ano passado.
Produtividade
- Economistas céticos (por dever de ofício) preferem patrulhar o índice de produtividade das 500 maiores corporações do país. Acima de 50 pontos, produtividade no aclive. Abaixo de 50, no declive. Em fevereiro, 54,7 pontos. Pela primeira vez em alta desde junho de 2000.

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