Joelmir Beting
Uma negociação só poderá ser considerada justa se ambas as partes saírem igualmente perdendo.
Arthur Bloch, ensaísta americano
O aço é fraco
O aço made in USA, claro. Indústria orgulhosa por vocação, ela se deixou resvalar para os campos minados da reserva de mercado e da proteção comercial, caldo de cultura da ineficiência e da acomodação.
Um equívoco estratégico parecido com o estrabismo estruturalista da Cepal, que tanto retardou e empobreceu a América Latina.
O protecionismo nacionalóide virou filho da nega maluca no carnaval da opulência capitalista. Os americanos culpam os europeus, que culpam os americanos. Europeus e americanos deram de culpar também os japoneses, chineses e coreanos. Com sobras para os brasileiros, mexicanos, indonésios e sul-africanos.
Porque 34 siderúrgicas do Tio Sam estão usinando déficits e dívidas há mais de sete anos, o governo Bush acaba de impor tarifas e cotas sobre importações de aço. A decisão unilateral tem o respaldo da lei americana de comércio, mas não tem o menor respeito pelo formato e pelo espírito dos tratados globais da Organização Mundial de Comércio (OMC). Nem sequer pelo antigo discurso da diplomacia do dólar, declinado desde o governo Nixon nas orelhas dos países em desenvolvimento: a retórica do mais comércio, menos ajuda.
Menos ajuda, sim. Mais comércio, não. O protecionismo dos poderosos vai de vento em popa nas marolas da globalização das empresas (mas não, necessariamente, dos mercados). Do aço ao suco, da soja ao plástico, do açúcar ao álcool, do tecido ao sapato ou do frango ao avião, a ordem é vestir o colete à prova de bala do big business e tarifar ou mesmo bloquear o desembarque de similares competitivos e atrevidos.
Mais ainda: o negócio é tirar lascas de medidas protecionistas para o exercício político de tratamentos favorecidos e diferenciados, calibrados e alocados pelos interesses diplomáticos da vez. Nesta nova blindagem do aço americano, por exemplo, ficam discriminados o Brasil, a Rússia, a Ucrânia e a Austrália, enquanto são poupados o Canadá, o México, a Argentina, a Turquia e a África do Sul.
Ao Brasil foi imposta uma cota máxima de 2,5 milhões de toneladas para as placas de aço. Acima dela, tarifa de 30% sobre o excedente.
Algo equivalente ao congelamento da expansão das vendas da siderurgia brasileira - cada vez mais competitiva.
A menos, claro, que o Brasil consiga disputar novos mercados com parceiros igualmente barrados no baile, especialmente Rússia e Austrália. Entre os mercados novos visados, os da Índia e da China, hoje endereço de um terço da Humanidade.
Secos & Molhados
Capacidade
As usinas brasileiras têm capacidade instalada para até 32 milhões de toneladas por ano de produtos siderúrgicos diversos. O mercado interno absorve 62% desse total. Lá fora, Estados Unidos, Argentina e Alemanha são os principais clientes.
Decepção
Para consultores do ramo, o Brasil vinha ganhando participação no mercado americano pela qualidade do produto e não pelo preço de combate. Para a modernização da siderurgia americana, a importação do Brasil deveria ser tratada como solução e não como problema.
Carambola
Rápida no gatilho, a União Européia já avisou que vai elevar suas próprias barreiras, agora em caráter preventivo. Ela teme que boa parte dos 16 milhões de toneladas doravante banidas do mercado americano seja desviada para o mercado europeu. É o velho efeito carambola do protecionismo do bode expiatório.





