Joelmir Beting
Com seleção em junho e com eleição em outubro, de tédio os brasileiros não vão morrer este ano.
Fernando Pedreira, jornalista
De juros e formigas
Estabilidade monetária e crescimento econômico não são excludentes ou alternativos. Eles são complementares ou aditivos. Ambos atuam como forças em processo de refertilização mútua. Com a ressalva: a estabilidade monetária é o fator condicionante; o crescimento econômico, o fator condicionado.
Tradução do economês: dá para controlar a carestia sem congelar a economia. Ou dá para expandir a economia sem disparar a carestia. Afinal, se recessão derrubasse inflação, Collor, o demolidor, teria acabado com ela. Sem corralito verde-amarelo. Bem ao contrário, o histórico brasileiro está mais para surtos intermitentes de recessão com inflação, vulgo stagflation.
Esse trololó vem a propósito da entrevista do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, a Suely Caldas e Fernando Dantas, no Estado de domingo, 3. Ele sustentou dois pontos luminosos: a) a recuperação da economia não ameaça a tendência declinante da inflação; b) estamos na trajetória certa e há espaço para a redução cautelosa e tempestiva dos juros.
Bingo! Só falta agora colocar esse sininho no pescoço do gato dos monetaristas de atalaia. Que etnia é essa? É a escola acadêmica segundo a qual a inflação só pode ser combatida a golpes sucessivos de arrocho monetário e de garrote tributário. Choques de competição nos mercados e de modernização nas empresas são menosprezados por ela. Os arautos desse dogma sustentam que mudanças na Selic à direita da vírgula têm massa crítica para controlar os espasmos da inflação e/ou para monitorar os níveis de poupança, investimento, produção e consumo.
Escrevi sobre o assunto no domingo. Lembrei ali que os monetaristas se comportam como as formigas da fábula dos moicanos: aboletadas em tronco arrastado pelas corredeiras do rio, as formigas imaginam que estão dirigindo o tronco.
E tome discussão bissexta sobre a curva purgativa dos juros na base, sem se dar conta da curva patogênica dos juros na ponta. Discussão requentada a cada cinco semanas pelas atas do Copom, jogo de transparência da autoridade monetária sobre mexidas na taxa piso de juros. O tal de mercado cuida de reler as entrelinhas de cada ata, na expectativa de adivinhar a próxima taxa.
Tarefa doravante dificultada por uma boa intenção do próprio Copom. Os conselheiros do Banco Central decidiram ampliar ainda mais a transparência na calibragem da Selic. O cenário de curto prazo entrega a bola de cristal a um horizonte que vai até dezembro do ano que vem. Com troca de governo e tudo.
Secos & Molhados
- Muito curto
Não é cortando um quarto de ponto porcentual na taxa nominal da Selic que se vai reaquecer a economia real. Nos terminais do crédito bancário, o total dos empréstimos continua abaixo de 27% do PIB (26,8% em janeiro). Na economia rural, os bancos cobrem menos de um décimo do PIB agrícola.
- Muito caro
Em janeiro de 2001, economia crescendo acima de 4,5% ao ano, a taxa média para as empresas estava em 35,65. Em janeiro deste ano, PIB abaixo de 1,5%, a mordida foi de 44,2%. Ou de 65,7% para a tal de conta garantida. No crédito pessoal, 84,7%. E, no cheque especial, mui especial, 160,1%.
- Muito duro
Resultado: inadimplência de 6,7% nas pessoas jurídicas e de 14,6% nas pessoas físicas (ou cívicas). Sem grilo. O spread médio dos bancos, por causa disso, subiu para 25,2% nos créditos à produção e para 53,2% nos financiamentos ao consumo. São bancos sólidos e líquidos para mutuários cada vez mais gasosos.





