‘‘Os argentinos têm raiva do presente, medo do futuro e ódio do passado.’’ Marialva Wasserstein, socióloga argentina
Milonga em Fortaleza
O novo plano de salvação nacional da Argentina, o sétimo em sete meses e quatro presidentes, será apresentado ao mundo no dia 11 de março, em Fortaleza. A capital do Ceará que tem disso sim deve hospedar a assembléia anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), um dos bombeiros do fogaréu platino.
Presidente do BID, Enrique Iglesias disse, em Washington, que o acordo com a comunidade financeira internacional, na UTI do FMI, corre contra o relógio da explosão social e da implosão política. A primeira está contratada por uma recessão da variedade rosca sem-fim. Letargia coletiva cavada pela fadiga do material de uma fantasia cambial feita para durar um ano, mas que teimou em não largar o osso por toda uma década.
Recessão com desemprego de 24% na Grande Buenos Aires e com empobrecimento epidêmico de dois terços da população de padrão classe média. Daí para a intolerância política e para uma ‘‘solução de força’’ é um passo. Ou um mês. Até porque ainda sem qualquer luz no fim do túnel.
Cadê o túnel? É o que se pergunta o cientista político Rosendo Fraga. Para quem o máximo de tensão social e de aversão política não dá liga com um governo Duhalde gasoso e poroso, montado por exclusão e sem legitimidade para liderar coisa alguma. Nem sequer para dobrar a resistência dos governadores do próprio partido (peronista) na costura de um pacto fiscal de emergência nacional.
Eis a questão de fundo. Ou do Fundo. Para o FMI, não há tempo nem espaço para um novo acordo guarda-chuva, dito de blindagem externa, sem antes um acordo sério de profilaxia interna. Os governos das províncias querem fazer a omelete sem quebrar os próprios ovos. Não admitem trocar repasses federais fixos por ‘‘participação nos resultados’’ de um Tesouro federal deficitário e insolvente.
Os governadores não têm pressa. Com as respectivas dívidas igualmente não renegociadas (nem mais recicladas), eles se permitem o luxo de emitir não-moeda com função de moeda (os patacones) para pagar funcionários e fornecedores. O governo Duhalde também acaricia a idéia de acionar as rotativas da Casa da Moeda (do peso em queda), na impossibilidade de aumentar e de cobrar impostos.
Pelo sim, pelo não, Enrique Iglesias não descarta a idéia de um socorro externo in extremis por fora ou ao largo dos cânones da burocracia e da diplomacia. Só faltou citar generais romanos, para os quais, sob certas condições, ‘‘a saída mais ousada é com certeza a mais segura’’.
Secos & Molhados
Geladeira
- Número um do FMI, a economista americana Anne Krueger prefere jogar para as arquibancadas acadêmicas. Ela reafirma que não haverá coração mole nos tratos com a Argentina. Chega de ‘‘moral hazard’’. Ou de tratar drogado com heroína.
Linha dura?
- Para endurecer suas intervenções (não raro desastradas e desastrosas), o FMI vai estrear no colapso argentino o Departamento de Operações Especiais, entregue ao indiano Anoop Singh. Que não fala espanhol e bota a escanteio os dois negociadores do FMI em Buenos Aires: Thomas Reichmann e Claudio Loser. O primeiro é chileno. O segundo, argentino. Yes.
Catimbando
- Para ganhar sustentação (ou simplesmente ganhar tempo), o presidente Eduardo Duhalde pensa em voz alta: 1) emitir pesos para amaciar o ‘‘corralito’’; 2) estudar um plano de dolarização terminal; 3) convocar plebiscito para legitimar mandato.

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