Joelmir Beting
Nosso paradoxo é sermos vistos lá fora como risco político tolerável, como risco econômico desfrutável e como risco financeiro inaceitável. Roberto de Oliveira Campos (1917-2001), economista
Yes, somos estáveis
Para o capital produtivo sem fronteira nem bandeira, aquele que entra para ficar, dando carona a tecnologias, produtos, serviços, mercados, empregos, salários e impostos, a taxa de risco do país receptor não está no câmbio da hora, nos juros do dia ou nos déficits da vez. Está nos cenários de médio e de longo prazos, recortados por duas variáveis: estabilidade econômica e estabilidade política.
Vai daí que o Lehman Brothers e o Eurásia Group juntaram as respectivas lunetas para a produção seriada, a quatro mãos, de um Índice de Estabilidade anual, prospectado, desde 2000, em 54 países emergentes, Brasil no meio. Objetivo do trabalho: medir a capacidade de cada país para suportar crises e/ou evitá-las.
A métrica mistura critérios diversos, mas desaguando em dois deltas: o dos fatores políticos e o dos fatores econômicos. Os primeiros, a cargo do Eurásia Group, empresa de análise de riscos políticos, com sobras para os problemas sociais. O segundo, a juízo do Lehman Brothers, gestor global de capitais de risco.
O ranking 2002 do Índice de Estabilidade, agora divulgado, aponta o Brasil na condição de terceiro país emergente mais estável (ou menos instável) do nosso atribulado mundo. Tomando-se o índice 100 como estabilidade máxima ou completa, o Brasil aparece com grau 64. Só perde para dois sobreviventes da derrocada socialista: Hungria (76) e Polônia (72).
Na classificação de cabeça para baixo, temos dois vizinhos sul-americanos disputando a taça de chumbo de emergentes mais instáveis do mundo: Venezuela (46) e Argentina (47). Mais instáveis ou menos confiáveis, nesta altura do calendário.
Sem mistério. Enquanto a Venezuela entra em rota de implosão política, a Argentina desfila os escombros econômicos, sociais e políticos da pior crise de sua História. Ela se deixou resvalar rapidinho da crise da competitividade para a crise da conversibilidade, com sobras para a crise da governabilidade. Em fevereiro do ano passado, ela brandia índice 67, então apenas um ponto abaixo do Brasil (68).
Sim, o índice brasileiro de estabilidade só declinou de 68 para 64 ao fim e ao cabo de 12 meses corridos de contágio argentino, de taquicardia cambial, de apagão energético e de violência montante e impune. Sem contar a recaída da sinistrose nacional bruta, servida por editores alarmados acionados por consultores alarmistas.
Para esta travessia brasileira de 2002, os analistas do Lehman e do Eurásia descartam desvios de rota na área econômica, identificam avanços nas contas públicas e, para variar, advertem para transtornos eventuais no curso ainda erradio da sucessão presidencial.
Secos & Molhados
Lado ruim
Agências classificadoras de riscos, faróis de neblina do capital volátil, preferem destacar indicadores periclitantes dos países emergentes, com metodologia no mínimo discutível. Para o capital volátil, assim avisado, o Brasil é o 5.º maior risco do mundo.
Lado bom
Instituições outras de análise global, plugadas nos rumos e nos prumos da economia real, preferem classificar os países estudados pelo flanco das oportunidades de negócios no presente e no futuro. Sob essa ótica, a do capital produtivo, o Brasil ostenta crachá de 5º melhor chamariz do mundo.
Vice-campeão
Balanço da Unctad sobre a transfusão de capitais produtivos coloca o Brasil, entre os emergentes, em segundo lugar, fungando na nuca do planeta China. De 1997 a 2001, a dólar de 2000, a coisa totalizou US$ 147 bilhões na China e US$ 131 bilhões no Brasil. No período, implosão da Ásia e da Rússia.





