‘‘Você reduziria a poluição per capita por um prêmio inferior a um centavo por dia? O presidente George Bush acredita que sim.’’
Paul Krugman, economista americano

Poluir para crescer
Em março do ano passado, ainda esquentando a cadeira do salão oval da Casa Branca, o presidente George Bush deu uma banana ao plano global de redução pactuada das emissões dos gases da riqueza. Uma descarga cumulativa que está elevando a temperatura do planeta sem juízo. Exposição de motivos: a redução da poluição não pode atrapalhar o aumento da produção, do consumo e do emprego.
Em outubro, escombros das torres gêmeas ainda fumegando no coração financeiro do mundo, o presidente George Bush ordenou estudos para a retomada da produção maciça de petróleo no santuário ecológico do Alasca - desde 1994 sob embargo ambiental. Exposição de motivos: a oferta de energia está abaixo da demanda e os Estados Unidos pós-atentados terroristas não podem continuar reféns do petróleo alheio, com seus barris misturados com fuzis.
Agora, fevereiro de 2002, o presidente George Bush coloca em órbita o esboço do programa americano de contenção voluntária das emissões de fábricas, máquinas e motores movidos a combustíveis fósseis ou sujos. Exposição de motivos: a redução dos poluentes ‘‘made in USA’’ terá de respeitar as necessidades e as conveniências dos Estados Unidos - sociedade energívora irreversível.
O modelo americano, na linha do ‘‘qualquer programa ainda é melhor que programa nenhum’’, nasce descolado do pacto mundial acertado por 55 países, em 1997, na cidade japonesa de Kyoto, sob o guarda-chuva político da Rio-92. Ocorre que o Protocolo de Kyoto não poderá permanecer em órbita sem a adesão dos Estados Unidos. Simples: pouco mais de 4% dos terráqueos, os americanos expelem 32% dos gases que inflam o chamado efeito estufa em todo o mundo.
Kyoto impôs aos países industrializados, principais usineiros do lixão atmosférico, que a gororoba organoquímica liderada pelo dióxido de carbono (C02) terá de ficar, até 2012, em pelo menos 5,2% abaixo dos níveis registrados em 1990. O planeta tem pressa. O efeito estufa, sem contenção do próprio, deve passar da média de 0,6 grau centígrado no século 20 para até 6,0 graus neste século 21.
O unilateralismo atávico de Washington compromete-se com a seguinte aritmética ecológico-econômica: cada milhão de dólares de produção ou de PIB vai ter de se contentar com emissões de no máximo 151 toneladas de dióxido de carbono, contra as atuais 183 toneladas. Uma redução, por milhão de dólares, de 18%. De 2002 a 2012. O problema é que o PIB de US$ 10 trilhões, no mesmo período, ensaia crescimento acumulado de 30%. Logo...
Secos & Molhados
Voluntário - Outro furo no programa: a adesão das empresas não será compulsória. Não haverá metas ou tetos nem mesmo para usinas e veículos movidos a petróleo, o vilão. Os americanos não abrem mão de carros beberrões, agora em versão ‘‘utilitários urbanos’’.
Sinal verde - Ambientalistas de meio mundo acham que a iniciativa de Washington vai desestimular pesquisas de conservação de energia na química dos combustíveis e na engenharia dos motores.
Premiação - George Bush confia em incentivos fiscais de até US$ 4,6 bilhões, em cinco anos, para a adesão dos poluidores. Paul Krugman se pergunta: ‘‘Você acha que essa ninharia vai mesmo mudar nossos padrões de consumo e dar uma resposta adequada a uma séria ameaça ao planeta de nossos filhos e netos?’’
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