‘‘A condução da economia moderna tem apenas dois problemas: quando as políticas fracassam e quando as políticas funcionam.’’
Mário Henrique Simonsen (1935-1997), economista
Sufoco sem refresco
Dizem que a taxa básica de juros, a Selic, baixou piedosamente em um quarto de ponto porcentual porque a inflação nos terminais do consumo, medida pelo IPCA, está mesmo no declive. Ou melhor: convergindo para a banda de cima da meta inflacionária do ano - algo entre 3,5% e 5,5%. Certo?
Nem tanto. Assim como o velho arrocho monetário não garante, necessariamente, a contenção dos preços em geral (a estagflação que o diga), o afrouxo no arrocho não tem massa crítica para detonar surtos frívolos de inflação de demanda - insônia de 11 em cada 10 economistas da escola monetarista.
Vale reprisar nesta coluna: são as novas forças do mercado, cada vez mais competitivo e excludente, que aprisionam o IPCA na jaula de um dígito anual. Qualquer que seja a gandaia do câmbio ou a remarcação tarifária. Nos últimos dois anos, a correção dos preços públicos, com peso abaixo de um terço na ponderação do IPCA, tem respondido por quase dois terços das taxas gregorianas do próprio. Um IPCA com meta quase auto-realizável.
Como é que é? Sim, pelos preços do mercado livre, o IPCA do ano passado, próximo de 8%, teria ficado abaixo de 3%. Logo, refrear o apetite contratual das tarifas administradas pelo governo tem muito mais a ver com o sucesso do ‘‘inflation targeting’’ verde-amarelo, inaugurado em 1999, do que o stop-and-go da Selic.
A própria manutenção da taxa básica acima de 15% ao ano guarda relação menos com a curva-guia do IPCA e mais com o risco país dentro e fora do Brasil. Um risco país atrelado a contágios de crises alheias, a recargas das neuras políticas (ou eleitorais), a táticas de rolagem da dívida pública, a ginásticas do ajuste fiscal, a casuísmos do regime tributário, a tropeços da garantia jurídica dos contratos, a estripulias da dupla satânica corrupção/violência...
Tradução: não dá para baixar generosamente a Selic sem rebaixar a percepção justa ou injusta do risco Brasil. O negócio, pois, é discutir menos o impasse da Selic e mais a larga margem de manobra dos juros nos financiamentos para produção, giro e consumo. Afinal, são os juros na ponta do crédito ao setor produtivo que determinam, tempestivamente, a dinâmica dos mercados, dos negócios, das empresas, dos empregos, dos salários, das expectativas.
Ocorre que, na ponta dos empréstimos bancários, o tranco para os mutuários ainda é castrador. Em dezembro, segundo o Bacen, as pessoas jurídicas pagaram, em média, juros anuais de 43,8%. E as pessoas físicas ou cívicas? Juros anuais de 71,8%. Com picos de até 155% no cheque especial e no rotativo do cartão de crédito.
Secos & Molhados
No garrote - Única certeza: com ou sem a redução da Selic, empréstimos à produção e ao consumo vão continuar abaixo de 30% do PIB. Eis aí o maior desvio de rota da economia brasileira. Lá fora, a coisa vai de 80% a 140% do PIB de meio mundo.
Curto e caro - É nosso o crédito bancário mais curto e mais caro do mundo. Curto porque é caro e caro porque é curto. Num mercado em que a oferta faz a própria demanda, os bancos se obrigam a ganhar mais sobre menos e não menos sobre cada vez mais.
É a febre, idiota! - O que não falta é explicação encharcada de álgebra para o fenômeno. Entre outras: curto e caro, o crédito é de alto risco; logo, o juro dá carona a um guloso prêmio de risco. Quer dizer: não é o juro alto que provoca calote ou inadimplência; é a inadimplência ou o calote que justifica o juro alto. É como se a febre fosse a causa da infecção.
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