Joelmir Beting
Acordem e progresso!
Carlito Maia, publicitário
E fez-se a luz
Brasil arrasado! Capa da IstoÉ/Dinheiro, 30 de maio de 2001.
Na capa, Antonio Ermírio de Moraes, maior empresário do País, suspirando fundo: Eu não consigo mais dormir. Perdi dez anos de trabalho. Apagão, eis a questão.
Na edição de 16 de maio, página 38, a revista Veja já havia antecipado na matéria Blecaute toda a tragédia nacional: O Brasil tem encontro marcado com o caos. Em junho começa o plano de racionamento de energia, expressão elegante que o governo encontrou para referir-se a um blecaute que vai apagar as cidades brasileiras por três a cinco horas - todos os dias. Os apagões podem gerar uma crise social, política e econômica como só os países em guerra enfrentam.
Outras revistas e todos os jornais e telejornais fartaram-se em anunciar o Juízo Final com data marcada. E não por culpa dos editores. O catastrofismo veio na tubulação das fontes de que se serve a imprensa em cometimentos do gênero: acadêmicos, consultores, empresários, consumidores.
Neste 19 de fevereiro de 2002, data do anúncio presidencial da suspensão do racionamento, que durou nove meses corridos, vale reprisar o que esta coluna martelou desde a eclosão do escândalo do apagão, em maio: os erros de percepção coletiva sobre o conteúdo e a extensão da crise de energia. Erros de percepção que produziram sonoros equívocos de projeção dos efeitos dela.
Erro maior: atribuir a uma redução compulsória de 20% do consumo aparente de energia no Brasil o mesmo impacto que semelhante medida produziria na Suíça ou no Japão - países que já atingiram o teto da conservação do precioso insumo. E que não têm como poupar um único quilowatt adicional sem privação da unidade equivalente de produto ou serviço. O trauma emocional do apagão deles deu-se nos anos 70, com o duplo oil-schock do petróleo.
Aqui no Brasil cor de anil, bem ao contrário, o eletrochoque de 2001 (com aviso prévio desde 1995) não passaria, como de fato não passou, de um corte catequético de 20% nas obscenas gorduras dos nossos usos e abusos da força e da luz. Ora, desde quando arrasar um país é aumentar a eficiência energética da economia e da sociedade? Desde quando levar um país ao caos é rebaixar os níveis de desperdício de um recurso então tido como natural, barato e seguro, doado por Deus?
Definitivamente, não. Ainda que por linhas tortas, o tal de apagão não foi uma tragédia. Bem ao contrário, foi uma solução.
Secos & Molhados
Balanço 1 - Manchete do jornal Valor, de ontem: Indústrias saem mais eficientes do racionamento. No subtítulo: Empresas se programam para manter economia de até 20% sem cortes da produção.
Balanço 2 - Sem mistério. Empresas de todos os setores cuidaram de substituir máquinas, processos e rotinas. Elas passaram a realizar uma unidade maior de produto ou serviço para a mesma unidade anterior de energia.
Balanço 3 - Essa produtividade maior da energia neutraliza o peso da tarifação maior da própria. Sem recessão e sem inflação. Ou bem mais que isso: sem arraso, sem blecaute, sem apagão.
Balanço 4 - O problema é que expectativa de crise provoca a crise que sanciona a expectativa. Como a crise, ainda assim, acabou negando fogo, aponta-se agora as chuvas de verão como tendo sido nossa única saída honrosa do apagão.
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