Joelmir Beting
A maior invenção da Humanidade? Sem dúvida alguma, a eletricidade.
Alvin Toffler, ensaísta americano
Vamos pipocar?
Por absoluta falta de desconfiômetro cívico, distribuidoras de eletricidade articulam campanhas de um aumento incentivado do consumo doméstico da preciosa mercadoria. Uma delas, desperdiçando criatividade promocional e inteligência corporativa, avisou que vai doar à clientela extasiada saquinhos de pipoca para atiçar o uso maior do microondas.
Obrigado pela dica. Não sabia que o microondas é um animal da espécie energívora, queimador de uma barbaridade de quilowatts. A ponto de justificar a distribuição em massa de saquinhos de pipoca. Faltou esclarecer, pipoca brasileira, americana ou paraguaia?
Pelo sim, pelo não, o bom São Pedro comunica a quem interessar possa que o tal de coeficiente de hidraulicidade dos nossos reservatórios entra em março pela cota supimpa de 54%. O que, para o Operador Nacional do Sistema Elétrico, que é do ramo, vale por uma reserva de segurança capaz de cobrir toda a travessia de 2002, sem racionamento. Amém.
A projeção oficial joga com duas hipóteses robustas: 1) a do uso racional continuado da energia pelas empresas e pelas famílias, segundo o figurino recortado pela catequese de choque de 2001; 2) a da ocorrência também das generosas águas de março fechando o verão, promessa de vida sem apagão.
Até o Nordeste, quem diria, já está a um gole do eixo da curva guia, fixada em 47,8% da capacidade de armazenamento. A virada de jogo deu-se de 14,2%, em agosto, para 45,1%, na semana passada. O consumo de energia em toda a região está 7,3% abaixo das metas estabelecidas pelo racionamento ainda em vigor.
Curva guia? Trata-se de uma projeção de risco, a partir dos níveis de retenção dos reservatórios nacionais, com antevisão de até 24 meses. Essa curva guia funciona como piso de segurança para a oferta de energia de pico sem cortes. Ela foi calculada para 47,8% no Nordeste e para 52,8% no Sudeste e no Centro-Oeste.
Cabe lembrar que a superação do déficit de energia está plugada em quatro tomadas: 1) contenção permanente do consumo perdulário; 2) reposição do estoque natural das represas; 3) ampliação da capacidade instalada de geração, transmissão e distribuição; 4) modelagem definitiva do megassetor, onde a garantia das regras pesa tanto quanto ou mais que a alegria das chuvas.
Secos & Molhados
Contenção
- Sim, o Brasil deve continuar desvencilhando-se do desperdício e da ineficiência nos usos da eletricidade de qualquer matriz. O aprendizado deu-se por linhas tortas e não há outro atalho para resolver problemas brasileiros de qualquer natureza.
Ferradura
- Única certeza: o racionamento por cotas pode ser substituído pelo racionamento por tarifas. Ainda defasadas no setor industrial. Por cotas, a contenção do consumo presente não se faz acompanhar pela ampliação da oferta futura. Por tarifas, dá-se uma no cravo e outra na ferradura.
Modelagem
- No mais, a remodelagem do megassetor elétrico exige uma carpintaria institucional arrastada e melindrosa. Pelo que já fez a Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica, em nove meses, ainda estamos a meio caminho. Mas no caminho certo.





