‘‘A Argentina está quebrada. Ela precisa de uma solução definitiva e não de mais uma saída de emergência.’’
Eduardo Amadeo, porta-voz do presidente argentino
Dólar sem peso
As projeções pessimistas são invariavelmente levadas a sério, encharcadas de credibilidade gratuita. Na psicologia dos mercados em movimento, o pessimismo tende a ser auto-realizável. Ou seja: a expectativa de crise provoca a crise que sanciona a expectativa.
Pois nove em cada dez analistas financeiros apostaram todas as fichas na desvalorização paroxística do peso argentino nesta primeira semana de câmbio livre ao fim e ao cabo de 130 meses corridos de paridade fixa pétrea. Falou-se em até 3,50 pesos por dólar em sondagem do jornal Ambito Financiero.
Ontem, terceiro dia de câmbio livre, a coisa permaneceu abaixo de 2 pesos por dólar. Pelo rádio, novo campeão de audiência, o presidente Eduardo Duhalde não se conteve e arriscou um palpite sobre a taxa efetiva de câmbio, dita de equilíbrio, a partir de março: 1,55.
O professor Eduardo Curia, autor do plano de conversibilidade adotado por Menem-Cavallo em abril de 1991, prefere lembrar que a flutuação desta semana tem sido meramente simbólica. O mercado não está operando a pleno. Os principais atores, incluído o próprio Banco Central, permanecem na moita. As trocas diárias não têm passado, desde segunda-feira, de US$ 4 milhões.
Essa falta de apetência nada tem de patriótica. Os grandes operadores (bancos, fundos e empresas) não se animam a arriscar o patrimônio no meio da cerração de uma crise rosca sem-fim. E os pequenos aplicadores (pessoas e famílias) simplesmente estão sem liquidez - quase toda ela bloqueada no ‘‘corralito’’ bancário.
Consta que no ‘‘black’’ igualmente na moita os argentinos estão mais vendendo do que comprando dólares. Eles precisam de pesos para o pagamento da quitanda, da farmácia ou da gasolina. O mesmo ‘‘corralito’’ também subtrai a liquidez das empresas em geral. Esse bloqueio seria desfeito, vagarosamente, de abril de 2002 a setembro de 2005. Dá para tomar uma Quilmes antes?
Enquanto a população fraudada retoma os panelaços contra o ‘‘corralito’’, as centrais sindicais juntam os trapos para uma ‘‘medida de força’’ por um reajuste salarial generalizado de 40% em março. Na retranca, o governo suspira fundo e martela o tango de uma nota só: não existe poção mágica para o enrosco nacional. No aguardo de uma solução definitiva, o povo argentino vai ter de doar tempo, suor e lágrimas.
O presidente Eduardo Duhalde admitiu terça-feira, pelo rádio, que governar agora a Argentina é como ‘‘bailar com la más fea’’.
Secos & Molhados
Quaresma - Ministro da Economia, Remes Lenicov sustenta que a luz no fim do túnel deve faiscar só no fim da Quaresma. De preferência, no sábado da Aleluia, Aleluia. Em mais 40 dias, diz ele, será possível avaliar, com relativa segurança, as curvas do câmbio flutuante e da inflação sem âncora.
Desacordo - O ministro tentou arrancar novos dinheiros do FMI, com aval do salão oval da Casa Branca. O FMI preferiu dar uma de banqueiro da anedota - o que empresta o guarda-chuva quando faz sol e toma o guarda-chuva de volta quando começa a chover.
Falta muito - A Argentina vai precisar de um par de muletas: a) a reestruturação da dívida em dólares (US$ 141 bilhões); b) a salvação do sistema bancário, abalroado pelo descasamento da ‘‘pesificação’’ dos depósitos (a 1,40 por dólar) e dos créditos a receber (1 por 1). Nessa penada, os bancos devem ‘‘micar’’ US$ 16 bilhões.
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