Joelmir Beting
Simples: quando a realidade econômica muda, minha convicção acadêmica também muda.
John Maynard Keynes (1883-1946), economista inglês
Sabemos errar sozinhos
A tecnoburocracia do FMI, que exala odor de formol, recomenda mais um ano de arrocho monetário no Brasil para manter a inflação anual trancafiada na jaula de um dígito. Dopados por uma doutrina monetarista anacrônica, usinada nos anos 50, os economistas do FMI nada mais fazem que remar a mesma canoa furada que exaure a competência profissional da maioria dos economistas americanos, europeus e brasileiros.
Seguinte: para os monetaristas de carreira, incrustados em escolas e governos, a austeridade monetária e a neutralidade fiscal são as únicas defesas do organismo econômico contra o vírus recidivo da inflação de demanda. Um vírus, dizem eles, do tamanho de um cachorro. Que não late, só morde. Inflação de demanda também por eles estigmatizada, nos anos 80, como a doença do século.
O problema é que a dinâmica dos mercados, que está mais para um processo social do que para um projeto físico, experimentou grandes solavancos e cruciais transformações nos anos 90, advento da chamada nova economia.
Um dos efeitos líquidos dessa revolução econômica, na poeira de uma explosão tecnológica ainda em curso, tem sido, precisamente, o desmonte da tal de inflação de demanda até mesmo em mercados com demanda atiçada.
Que o diga, em bloco, a estrepitosa prosperidade da economia americana na segunda metade da década passada. Não houve rebrota da inflação de demanda nem mesmo com PIB acima de 5% ou com desemprego abaixo de 4%. Ela não empinou o queixo sequer com a farra de crédito para consumo cidadão americano devendo ainda hoje 177 dias de salário (contra 23 dias do brasileiro).
Entre nós, houve expansão do PIB, em 2000, de 0,7% para 4,4%. Reaquecimento fertilizado exatamente pelo desaperto do arrocho monetário, ousadia de Armínio Fraga que nada tem de acadêmico enrustido. Ou de monetarista monástico. E qual foi a resposta da inflação pela métrica oficial do IPCA? Na contramão daquela expansão da demanda agregada, a inflação brasileira declinou de 9%, em 1999, para 6%, em 2000.
Paradoxal, pois não? Sim, para a escola monetarista de Chicago. Mas não para nossa realidade econômica de Xapecó. Muito menos para o desconfiômetro já ligado de um número crescente de analistas. Para os quais o controle da inflação dos novos tempos tem a ver, não com arrocho monetário ou com garrote tributário, mas com o tripé modernização, competição, informação. No caso brasileiro, desde 1994, também com a desindexação.
SECOS & MOLHADOS
Autores
- O descarte da inflação de demanda em meio mundo não é façanha de burocratas nem de economistas. É de tecnólogos, engenheiros, executivos, fornecedores, distribuidores, trabalhadores e consumidores. Acabou o repasse sumário de custos para preços. Entre nós, tem sido até mais fácil maquiar produtos do que remarcar tabelas...
Overdose
- Só falta avisar o FMI, com cópias para Malan & Greenspan. Até porque, em matéria de austeridade monetária, sobrevivemos em overdose de crédito curto e caro desde a debt crises dos anos 80. Arrocho indecente que, de resto, não evitou, antes do Real, a escalada da inflação anual de dois para três e quatro dígitos.
Quem faz?
- No mais, gostaria que o FMI fosse informado do seguinte: o IPCA de 7,7%, em 2001, teve dois terços dele paridos por preços administrados. Ou seja: dois terços de inflação do governo severo versus um terço de inflação do mercado livre. Ah! Sem recessão. O PIB cresceu 2,3%.





