‘‘Ou como nos ensina em livro nosso Paulo Coelho: a mão que atira pedras é a mesma que apedreja.’’
Falcão, cantor e compositor
As garras da águia
O poderoso complexo industrial-militar dos Estados Unidos esfrega as mãos de alegria: o orçamento da defesa nacional, para o próximo ano fiscal, a partir de outubro, deverá subir para US$ 1 bilhão por dia. Ou mais precisamente: US$ 369,3 bilhões no ano.
Pela segunda vez em dez anos, os gastos militares escapam por um triz das tesouras do Executivo, do Congresso e da sociedade. Em 1992, a megaconta foi preservada e até ampliada pelas escaramuças arabescas do Saddam. Agora, preservada e de novo ampliada pelos horrores em domicílio do Taleban.
Yes, Saddam e Bin Laden devem ser fisicamente poupados para que permaneçam convenientemente ativos. Eles são os culpados úteis de dotações governamentais que reciclam negócios diretos e indiretos, públicos e privados, de US$ 640 bilhões nos dois lados do Atlântico Norte – se computada a parceria européia da Otan.
São negócios que dão emprego a 11 milhões de americanos e europeus – incluídos os cientistas de laboratórios e universidades, a serviço dos novos desbravamentos da guerra nuclear, da guerra química, da guerra biológica, da guerra sideral, da guerra telecom-datacom. Um megamercado que se viu ameaçado, da noite para o dia, sem aviso prévio, pela queda dos Muros em novembro de 1989 e pela queda das torres em setembro de 2001.
A proposta orçamentária que o presidente George Bush depositou segunda-feira no Congresso totaliza despesas federais de US$ 2,1 trilhões, cerca de um quinto do PIB projetado de US$ 10 trilhões. A fatia do ‘‘estado de guerra’’ fica com quase 18% do vasto bolo. Contra 2,4% da Educação ou 3,2% da Saúde.
Guerra é guerra, suspira Bush em sua exposição de motivos. A ração suplementar de mais US$ 48 bilhões sobre os gastos militares do ano fiscal 2002 é explicada pela urgência da ampliação da segurança interna – agora que o terror pelo terror trouxe a morte monitorada para dentro das fronteiras americanas – pela primeira vez na História.
A nova partilha dos gastos militares ampliados reserva, entre outros dispêndios, US$ 38 bilhões para segurança interna, US$ 54 bilhões para pesquisa e desenvolvimento de novos arsenais e de novos sistemas de defesa/ataque, US$ 69 bilhões para novos equipamentos e US$ 94 bilhões para custeio do pessoal das defesas civil e militar.
O detalhe político: Bin Laden retemperou o orgulho nacional dos americanos e restabeleceu o prestígio popular das Forças Armadas.
Secos & Molhados
Como é que é?
- E tome discussão metafísica sobre o alcance de uma blindagem anual de US$ 369 bilhões para o enfrentamento de mochilas, sapatos e casacos de uma dezena de suicidas teleguiados. Jovens fanatizados por velhas tiranias políticas disfarçadas de fundamentalismo religioso. Ou de fundamentalismo ideológico.
No vermelho
- O novo orçamento contrata déficit primário de US$ 81 bilhões. Muito ou pouco? Falava-se em superávit sustentável por toda esta década, com redução progressiva da carga tributária de 32% para 29% do PIB. Já não se fala mais nisso. Só o Krugman.
Na reversão
- O aumento nominal de 3,2% do orçamento joga com inflação anual de 2,4% e com expansão de 3,8% do PIB já projetado para US$ 10 trilhões. Com ou sem a economia de guerra, aposta-se em novo ciclo de vacas gordas.

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